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Barzine #2 – Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos – Belo Horizonte

Esta edição da Barzine, fanzine do EMCOMUM ESTÚDIO LIVRE, traz um trecho da pesquisa sobre a história da Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos (BNHQ), que integra a produção da dissertação em Ciência da Informação (PPGCI-UFMG) de Richardson Santos de Freitas, que está desenvolvendo um estudo de caso sobre a Gibiteca da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte (BPIJ-BH).

Inaugurada em 1º de novembro de 1987, a BNHQ foi o primeiro espaço com acervo aberto ao público dedicado às histórias em quadrinhos de Belo Horizonte. A gibiteca foi idealizada pelo colecionador Antônio Roque Gobbo que, ao se mudar para a capital de Minas Gerais, disponibilizou sua coleção para consulta de forma gratuita. Defensor da preservação da memória dos quadrinhos, em um gesto de generosidade, em 1992 Gobbo doou toda a coleção para dar origem à Gibiteca da BPIJ-BH em 1992.

Barzine – Ano 1 – v. 2 – ago. 2025
Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos
Por Richardson Santos de Freias
Formato 15×21 cm- Preto e Branco – 16 páginas.

Trabalho e revista lançada na nona edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP.

Artigo públicado na revista Nona Arte – Revista Brasileira de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos, do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, vol. 14/2026. Qualis B2.

Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos de Belo Horizonte

Autores: Richardson Santos de Freitas e Lorena Tavares de Paula.

RESUMO: Pesquisa exploratória de abordagem qualitativa, que faz um estudo de caso sobre a Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos. Inaugurada no final de 1987, esse foi o primeiro espaço com acervo aberto ao público dedicado às histórias em quadrinhos de Belo Horizonte. A gibiteca foi idealizada pelo colecionador Antônio Roque Gobbo, que ao mudar para a capital de Minas Gerais, disponibilizou sua coleção para consulta de forma gratuita. Defensor da preservação da memória dos quadrinhos, em um gesto de generosidade, em 1992 Gobbo doou toda a coleção para dar origem à Gibiteca da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte.

Antônio Roque Gobbo

Antônio Roque Gobbo nasceu em 11 de novembro de 1935, na cidade de São Sebastião do Paraíso. O município está localizado na região sudoeste do estado de Minas Gerais. O gosto pela leitura veio cedo. Entre os 6 e 7 anos ganhou seu primeiro livro, Dom Quixote para Crianças, de Monteiro Lobato. Gobbo em entrevista para a Rede Minas (Conversações, 2018) disse que este prazer pela leitura foi influenciado pelo seu tio Armando, que morava na mesma casa. Seu tio assinava diversas revistas e tinha uma biblioteca em casa. “A paixão pelas histórias em quadrinhos começou por volta dos 7 anos, num tempo em que televisão era peça de ficção de um futuro quase intergalático” (Werneck, 2010). No princípio lia as revistas que os seus colegas de escola emprestavam. Entre os seus personagens preferidos estavam o Fantasma, Tarzan, Super-Homem e Capitão América. Com o tempo, passou a guardar as suas revistas O Tico-Tico, Globo Juvenil, Guri, Mirim, Gazeta Infantil, Clássicos Ilustrados e qualquer outro gibi que chegasse em suas mãos. Com o tempo, foi se constituindo sua coleção, que passava a crescer em volume. 

Devido ao emprego de bancário de seu pai, Gobbo e sua família faziam constantes mudanças de cidade. Em todas elas, nunca deixava para trás suas revistas. Sua coleção era armazenada cuidadosamente em caixas e transportadas para a nova moradia. Virou bancário no Banco Credireal e passou a ter dinheiro para comprar mais livros e revistas em quadrinhos. Casou-se com Enny Gobbo. 

Em 1985, quando chega com a família na cidade Belo Horizonte, traz na bagagem mais de quatro décadas de acervo acumulado. Foi quando sua esposa o perguntou o que ele iria fazer com todo aquele material. Depois de sua aposentadoria, Gobbo idealizou, junto com Vicente de Paula Penido e Lenine Lucas, um espaço para disponibilizar o acesso às suas HQs. 

Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos

Em 1º de novembro de 1987 foi inaugurada a Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos (BNHQ), o primeiro espaço dedicado às histórias em quadrinhos aberto ao público na capital mineira. Sua sede estava localizada em uma sala na própria residência de Gobbo. O acervo inicial da gibiteca era de 1.800 exemplares (Repórter HQ, v. 23, 1989, p. 2), com consulta local e gratuita.

Segundo Vergueiro (2003, p. 2), gibiteca é “[…] um neologismo que buscava nomear uma biblioteca especialmente dedicada à coleta, armazenamento e disseminação de histórias em quadrinhos”, acrescentando a informação de ser “[…] um termo diretamente derivado da forma como as revistas de histórias em quadrinhos são tradicional e carinhosamente referidas no país – gibi, nome de uma famosa e popular revista das organizações O Globo, publicada de 1939 a 1950”. 

As coleções especiais, que também são chamadas de gibitecas, tem como características serem:  

[..] um acervo especializado em Histórias em Quadrinhos (HQ), que pode funcionar como um setor da departamentalização de uma unidade de informação, ou mesmo se constituir numa unidade de informação independente e autônoma. Caracteriza-se por reunir coleções de publicações voltadas para HQ, no todo ou em parte, assim como na organização de séries de quadrinhos destacadas do veículo de publicação original, em formato de Hemeroteca. As Gibitecas também se dedicam a colecionar as Narrativas Sequenciais Gráficas anteriores, que trazem as características primordiais desse gênero literário, assim como sua linguagem híbrida de texto e imagem e publicação em suportes típicos (Melo, 2022, p. 14).

Ramos (2023), reforça o argumento de que é necessário locais de estímulo à leitura de quadrinhos que tenham a função de organizar, catalogar e disseminar a linguagem, caracterizando as gibitecas como lugar com uma função social de inclusão, estímulo à leitura, criatividade e criticidade: 

Uma vez estabelecendo a presença de informação junto a narrativa das HQs, e considerando os diferentes gêneros presentes nesses quadrinhos – terror, infantis, biografias, super-heróis, entre outros – bem como a quantidade expressiva de publicações disponíveis atualmente no mercado nacional e internacional, é interessante se pensar em formas pelas quais seja possível fornecer o acesso as HQs, tanto das que foram produzidas em décadas anteriores quanto as atuais, estimando aqueles que necessitam obter e acessar a informação contida em suas narrativas. Para isso, deve-se contar com um local que atue como disseminador, para que outros possam também receber informações presentes nesses recursos informacionais, promovendo seu acesso e uso por parte dos leitores (Ramos, 2023, p. 7-8).


Gobbo, em uma entrevista para o Jornal de Opinião, declara que “Preservar a memória das histórias em quadrinhos é o principal objetivo da Biblioteca Nacional. […] ‘Além disto, qualquer historinha revela o painel sócio-cultural em que foi escrita’, acrescenta” (Repórter HQ, v. 23, 1989, p. 4). Estes lugares de salvaguarda de quadrinhos são necessários devido a grande quantidade de publicações disponíveis no mercado e portanto “[…] é interessante se pensar em formas pelas quais seja possível fornecer o acesso as HQs, tanto das que foram produzidas em décadas anteriores quanto as atuais, estimando aqueles que necessitam obter e acessar a informação contida em suas narrativas” (Ramos, 2023, p. 7-8). No acervo da BNHQ havia raridades, como as revistas O Tico-Tico; o Pato Donald número 1 publicado em 1950 pela editora Abril; o Gury, de 1940, publicado pelo Diário da Noite do grupo Diários Associados; a coleção completa de Gibi Semanal da editora Globo, de 1974/1975; a edição de luxo da adaptação em quadrinhos de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre; revistas de faroeste da série Epopéia Tri; a Bíblia em quadrinhos, da Edições Paulinas; e a coleção infanto-juvenil Maravilhosas que traziam a quadrinização dos clássicos da literatura mundial. Também encontrava-se no acervo revistas contemporâneas, como as revistas de super-heróis norte-americanos, álbuns de quadrinhos europeus, mangás e coleções de fanzines de artistas independentes. Contava ainda com livros teóricos e uma hemeroteca com recortes de páginas de jornais com notícias sobre quadrinhos. Ramos (2023, p. 8) esclarece que esses locais, além da prática da coleta, armazenamento e disseminação de quadrinhos são unidades de informação especializadas que permitem “[…] o acesso desses quadrinhos ao público leitor interessado em lê-los”, estimulando o “[…] encontros e debates que sejam interessantes, contribuindo assim para com a formação de leitores engajados e de uma cultura devotada as HQs […]”.

Leia o artigo completo no site da revista Nona Arte – EBA/USP: https://revistas.usp.br/nonaarte/pt_BR/article/view/241815

FREITAS, Richardson Santos de; PAULA, Lorena Tavares de. Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos de Belo Horizonte. 9ª Arte (São Paulo)[S. l.], v. 14, p. e241815, 2026. DOI: 10.11606/2316-9877.2025.v14.e241815. Disponível em: https://revistas.usp.br/nonaarte/article/view/241815.

Fanzine, de Edgard Guimarães

“Ao se falar de fanzines no Brasil temos necessariamente que passar pela obra de Edgard Guimarães. Quadrinista exímio, produtor e editor de inúmeras publicações independentes, Edgard é ainda um camarada na expressão exata do termo. Seu contato com grande parte dos editores e leitores de fanzines no país se dá num clima de cordialidade rara num meio onde vez ou outra explodem egos insuflados.

Em plena crise da produção dos fanzines, na segunda metade dos anos 1980, estava Edgard a todo vapor, lançando verdadeiros álbuns temáticos, reunindo os maiores nomes dos novos autores de quadrinhos. Esse espírito militante, essa capacidade visionária, faria com que ele lançasse pouco depois um projeto ousado: produzir e distribuir fanzines de vários editores de todo o país. Em paralelo, passou a editar o que viria a ser o guia de nossa imprensa autoral, o fanzine Informativo de Quadrinhos Independentes. Atualmente conhecido apenas como QI, esta publicação reúne a cada dois meses centenas de títulos de fanzines, livros e álbuns não só de quadrinhos, mas de quase tudo o que circula fora do circuito comercial.

Conhecimento de causa, portanto, Edgard tem de sobra e não só por teorizações acadêmicas. Na prática ele construiu uma das mais ricas histórias do universo dos fanzines, com domínio de todas as fases de produção. É exatamente esta experiência que ele disponibiliza aos leitores por intermédio do livro que se tem em mãos.

Este trabalho tem os fanzines como tema, abordando seus variados aspectos, desde a definição do termo até a distribuição, passando por aspectos inusitados, mas interessantes, como a pirataria nos fanzines, as premiações e a relação com o meio profissional. Se no livro O rebuliço apaixonante dos fanzines eu me detenho na trajetória dessas publicações no Brasil, Edgard procura ser mais didático, oferecendo aos leitores um precioso guia para quem quer adentrar o meio com informações objetivas sobre os caminhos que se deve trilhar para chegar à edição.

Enfim, é bom frisar que Fanzine teve sua primeira edição produzida pelo autor em janeiro de 2000 e se tornou de imediato leitura indispensável para quem admira ou estuda esse tipo de publicação. A segunda e a terceira edição saíram pela Marca de Fantasia, assim como esta quarta edição digital, cujo propósito é ampliar ainda mais seu público, favorecendo a produção independente no país.”

Henrique Magalhães

Fanzine – 4ª Edição
Edgard Guimarães
Marca de Fantasia
ISBN 978-65-86031-02-7

GUIMARÃES, Edgard. Fanzine. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2005. Disponível em: https://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/fanzine/fanzine4ed.pdf

Cadê a minha cabeça

Publicada na revista 4X4 nº1 – Perdi minha cabeça na zona (Abril/2016) – Peba Edições

4×4 é uma publicação coletiva da Peba Edições. Artistas do nº 1: Ric / Vitu Maia / Wagner Nyhyw / Marcelo Dola

Boteco do fim do mundo

Revista 4×4 nº2 – Meu pai é um E.T. (Setembro/2016) – Peba Edições

4×4 é uma publicação coletiva da Peba Edições. Aristas:  Marcelo Dola, Lexy Soares, Wagner Nyhyw, Ric, Vitu Maia. Capa de Rosa Inês.

Apenas mais uma história em quadrinhos

História publicada no Fanzine “De Última Hora”, lançada em 2003 no III Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte.

Fanzine completo, com as histórias de Leo Romão e Ricardo Lima (Laranja).

1965 – Fanzine Ficção

1ª edição: 12 de outubro de 1965, Piracicaba/SP.

O primeiro fanzine de histórias em quadrinhos do Brasil é o “Ficção – Boletim do Intercâmbio Ciência – Ficção Alex Raymond”, idealizado pelo desenhista Edson Rontani. Feito em mimeógrafo, a edição era distribuída via correio. Chegou a ter 12 edições e tiragens de 300 cópias.

O boletim trazia reportagens sobre personagens, artistas e editoras. Publicava catálogos de compra e venda de hqs e uma lista de produções. Tinha o objetivo de ser uma publicação de troca de informações entre os colecionadores de histórias em quadrinhos .

Ao enviar exemplares do antigo boletim para um clube de colecionadores na França, eles responderam chamando a publicação de fanzine. Assim, Rontani lançou uma nova versão substituindo o termo “boletim” por “fanzine”, ficando Fanzine Ficção.

Fanzine é uma palavra inglesa que vem da contração dos termos FANatic + magaZINE (revista de fã). Significa uma revista artesanal feita por fãs que querem trocar informações ou mostrar seus trabalhos independentes. Os primeiros fanzines surgiram a partir da década de 30 nos EUA, elaborado por leitores de revistas de ficção científica. A revista artesanal, devido ao seu baixo custo e a possibilidade de reprodução em pequena escala, logo foi adotado também por fãs de quadrinhos. Com o novo lançamento de Rontani, o termo passou a ser disseminado e adotado no cenário da produção brasileira, tanto para edições informativas, quanto para revistas independentes e experimentais.

Painel de exposição em homenagem a Esdon Rontani.
Crédito: http://edsonrontani.blogspot.com/

Edson Rontani nasceu em Piracicaba em 23 de março de 1933. Foi formado em Direito mas nunca exerceu a profissão. Era polivalente, atuando em diversas atividades profissionais como jornalista, pintor, decorador, radialista, cartunista e ilustrador. Era amante de quadrinhos e um grande colecionador. Sua coleção chegou a ter um acervo de mais de mil gibis. Criou o Estúdio Orbis de Desenho nos anos 50, onde ministrava aulas e prestava serviços de desenho e publicidade. Em 1974, teve a ideia de realizar o Salão de Caricaturas de Piracicaba, na Pinacoteca Municipal.

Criou o mascote Nhô Quim para o time de futebol XV de Novembro de Piracicaba. Passou a criar ilustrações de Jeca, sobre futebol, o que o levou seus desenhos para a Gazeta Esportiva. Trabalhou para as publicações Folha Piracicabana, Tribuna, Jornal de Piracicaba e O Diário. Contribui para as revistas da EBAL fazendo desenho para as capas. Entre elas, Superman nº 9 e Batman nº 43, ambas publicadas em janeiro de 1965.

Em 1981, cria o suplemento infantil “Você Sabia?”, sendo redator e ilustrador. Rontani produziu a página até 1997, ano de seu falecimento.

REFERÊNCIAS

Blog Edson Rontani: http://edsonrontani.blogspot.com/

GUIMARÃES, Edgard. Fanzine. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2005. Disponível em https://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/fanzine/fanzine4ed.pdf

MEDEIROS, Lucas de Sousa. A identidade de fã mediada pelos fanzines: análise do discurso de fã nos fanzines brasileiros de história em quadrinhos da década de 1990. Dissertação (Mestrado em História Cultural) – Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/16527/1/IdentidadeFaMedida.pdf

NEGRI, Ana CAmila. Quarenta anos de fanzine no Brasil: o pioneirismo de Edson Rontani. V Encontro de Pesquisa da Intercom. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R0469-1.pdf