Trechos do livro que foram traduzidos do francês usando ferramentas online de tradução de texto.
O humanismo digital é o resultado de uma convergência entre nosso complexo patrimônio cultural e uma técnica que transformou, sem precedentes, os espaços de sociabilidade. Uma convergência que, em vez de simplesmente reconectar o antigo e o atual, redistribui conceitos, categorias e objetos, assim como os comportamentos e práticas a eles associados, em um novo ambiente.
O humanismo digital tem dimensão cultural, no sentido de que estabelece um novo contexto em escala mundial que modifica nossa percepção dos objetos, das relações e dos valores, e pelas novas perspectivas que introduz no campo da atividade humana.
Essa dimensão cultural torna-se evidente na crise atual de alguns dos nossos objetos mais clássicos. Em primeiro lugar, os objetos herdados da cultura do impresso e do livro, com sua materialidade e complexidade, estão hoje confrontados com as práticas e as limitações do ambiente digital. Se o livro enquanto objeto resiste, a cultura do livro e do impresso está em crise, em grande parte por causa das práticas correntes e quase naturais do ambiente digital. A convergência entre técnica e patrimônio cultural exige uma revisão dos valores ligados às práticas editoriais e jurídicas enraizadas em uma tradição com grande peso econômico, função simbólica poderosa e papel político relevante. Assim, a transformação provocada pelo digital atinge a estabilidade desse espaço em toda a sua diversidade. Seja nas instituições (universidades, editoras, revistas científicas etc.) ou nos arquivos (bibliotecas), a cultura digital transforma as práticas correntes e pode modificar a própria natureza dos objetos do conhecimento, bem como do espaço que deveria abrigá-los e fazê-los circular.
Embora essas reações possam parecer exageradas, elas testemunham a realidade de uma mudança radical no cotidiano e na cultura. Revelam também uma reação conservadora, muitas vezes nostálgica, que percebe a transformação digital como uma ruptura entre modelos relativamente estáveis herdados dos últimos dois séculos e que sustentavam a legitimidade do conhecimento.
No entanto, é importante destacar que a transformação digital modifica ainda mais o espaço do que o tempo. Sua originalidade deriva, em grande parte, da nova espacialidade que ela cria. É nesse sentido que ela reinventa o cotidiano, com seus espaços habitáveis, seus modelos de comunicação e seus valores. Esse cenário evidencia as dificuldades do nosso presente híbrido: ao mesmo tempo antigo e moderno, digital e “clássico”.
O digital, portanto, interroga nossos objetos fundamentais — aqueles do conhecimento, da política e da vida social. Ele o faz por meio de um duplo movimento: primeiro, parece apropriar-se desses objetos culturais, fazendo-os circular em um novo contexto e, sobretudo, modificando suas propriedades; em seguida, introduz objetos novos, inéditos ou ao menos diferentes.
Em contraste, o impresso tira grande parte de sua força e estabilidade de sua fixidez: fixidez do objeto, dos suportes e, em certa medida, dos conceitos. O digital, ao contrário, parece destinado à variação e à diversificação: em princípio, qualquer arquivo pode ser convertido facilmente em diferentes formatos, mantendo, do ponto de vista do usuário, a mesma aparência e propriedades.
Mais ainda, esses objetos nos colocam diante de uma necessidade: revisitar o legado ambivalente do Iluminismo. Esse legado parece permitir ao menos duas tendências contraditórias:
- uma ligada à consolidação da cultura do livro e de suas instituições (universidade, edição, imprensa);
- outra baseada no ideal de compartilhamento livre e circulação do conhecimento.
Essas duas tendências não são apenas conflitantes — são também escolhas estéticas, econômicas e políticas. Elas convergem de forma marcante nos debates atuais sobre a organização do conhecimento e os novos modelos de acesso à cultura.
Estamos atualmente assistindo ao surgimento de um novo urbanismo virtual. Nesse urbanismo, é importante lembrar, as plataformas são fundamentais — não apenas porque gerenciam o acesso e o armazenamento, mas porque se tornaram, graças às atividades dos usuários (ou talvez devêssemos deixar de falar em “usuários” e passar a dizer simplesmente “humanos”), verdadeiros espaços de convergência entre informação, comunicação, conhecimento e sociabilidade.
O urbanismo virtual é o lugar de uma cultura emergente de caráter “antológico” — ao mesmo tempo erudita e popular, acadêmica e amadora. “Aumento” e “imersão” são as palavras-chave dessa nova realidade, que se desenvolve progressivamente por meio de uma reinvenção das interfaces e de uma redistribuição da informação e do conhecimento — processo que implica uma transformação profunda.
Por essa razão, o humanismo digital deve dialogar com os discursos transumanistas, a fim de compreender melhor os desafios e implicações dessa nova configuração cultural. O humanismo digital propõe, portanto, pensar essa integração de forma crítica, consciente e responsável. Ele busca compreender como as tecnologias digitais transformam nossas práticas, nossos modos de produção do conhecimento e nossas formas de sociabilidade, sem perder de vista os valores fundamentais que estruturam a vida humana.
Nesse sentido, o humanismo digital não é um retorno ao passado, nem uma simples adaptação ao presente tecnológico. Ele é, antes, uma tentativa de redefinir o lugar do humano em um ambiente profundamente transformado pela técnica.
DOUEIHI, Milad. Pour un humanisme numérique (Para um Humanismo Digital). Paris: Seuil, 2011.

