Categoria: Humanidades

Humanismo Digital, Milad Doueihi

Trechos do livro que foram traduzidos do francês usando ferramentas online de tradução de texto.

O humanismo digital é o resultado de uma convergência entre nosso complexo patrimônio cultural e uma técnica que transformou, sem precedentes, os espaços de sociabilidade. Uma convergência que, em vez de simplesmente reconectar o antigo e o atual, redistribui conceitos, categorias e objetos, assim como os comportamentos e práticas a eles associados, em um novo ambiente.

O humanismo digital tem dimensão cultural, no sentido de que estabelece um novo contexto em escala mundial que modifica nossa percepção dos objetos, das relações e dos valores, e pelas novas perspectivas que introduz no campo da atividade humana.

Essa dimensão cultural torna-se evidente na crise atual de alguns dos nossos objetos mais clássicos. Em primeiro lugar, os objetos herdados da cultura do impresso e do livro, com sua materialidade e complexidade, estão hoje confrontados com as práticas e as limitações do ambiente digital. Se o livro enquanto objeto resiste, a cultura do livro e do impresso está em crise, em grande parte por causa das práticas correntes e quase naturais do ambiente digital. A convergência entre técnica e patrimônio cultural exige uma revisão dos valores ligados às práticas editoriais e jurídicas enraizadas em uma tradição com grande peso econômico, função simbólica poderosa e papel político relevante. Assim, a transformação provocada pelo digital atinge a estabilidade desse espaço em toda a sua diversidade. Seja nas instituições (universidades, editoras, revistas científicas etc.) ou nos arquivos (bibliotecas), a cultura digital transforma as práticas correntes e pode modificar a própria natureza dos objetos do conhecimento, bem como do espaço que deveria abrigá-los e fazê-los circular.

Embora essas reações possam parecer exageradas, elas testemunham a realidade de uma mudança radical no cotidiano e na cultura. Revelam também uma reação conservadora, muitas vezes nostálgica, que percebe a transformação digital como uma ruptura entre modelos relativamente estáveis herdados dos últimos dois séculos e que sustentavam a legitimidade do conhecimento.

No entanto, é importante destacar que a transformação digital modifica ainda mais o espaço do que o tempo. Sua originalidade deriva, em grande parte, da nova espacialidade que ela cria. É nesse sentido que ela reinventa o cotidiano, com seus espaços habitáveis, seus modelos de comunicação e seus valores. Esse cenário evidencia as dificuldades do nosso presente híbrido: ao mesmo tempo antigo e moderno, digital e “clássico”.

O digital, portanto, interroga nossos objetos fundamentais — aqueles do conhecimento, da política e da vida social. Ele o faz por meio de um duplo movimento: primeiro, parece apropriar-se desses objetos culturais, fazendo-os circular em um novo contexto e, sobretudo, modificando suas propriedades; em seguida, introduz objetos novos, inéditos ou ao menos diferentes.

Em contraste, o impresso tira grande parte de sua força e estabilidade de sua fixidez: fixidez do objeto, dos suportes e, em certa medida, dos conceitos. O digital, ao contrário, parece destinado à variação e à diversificação: em princípio, qualquer arquivo pode ser convertido facilmente em diferentes formatos, mantendo, do ponto de vista do usuário, a mesma aparência e propriedades.

Mais ainda, esses objetos nos colocam diante de uma necessidade: revisitar o legado ambivalente do Iluminismo. Esse legado parece permitir ao menos duas tendências contraditórias:

  • uma ligada à consolidação da cultura do livro e de suas instituições (universidade, edição, imprensa);
  • outra baseada no ideal de compartilhamento livre e circulação do conhecimento.

Essas duas tendências não são apenas conflitantes — são também escolhas estéticas, econômicas e políticas. Elas convergem de forma marcante nos debates atuais sobre a organização do conhecimento e os novos modelos de acesso à cultura.

Estamos atualmente assistindo ao surgimento de um novo urbanismo virtual. Nesse urbanismo, é importante lembrar, as plataformas são fundamentais — não apenas porque gerenciam o acesso e o armazenamento, mas porque se tornaram, graças às atividades dos usuários (ou talvez devêssemos deixar de falar em “usuários” e passar a dizer simplesmente “humanos”), verdadeiros espaços de convergência entre informação, comunicação, conhecimento e sociabilidade.

O urbanismo virtual é o lugar de uma cultura emergente de caráter “antológico” — ao mesmo tempo erudita e popular, acadêmica e amadora. “Aumento” e “imersão” são as palavras-chave dessa nova realidade, que se desenvolve progressivamente por meio de uma reinvenção das interfaces e de uma redistribuição da informação e do conhecimento — processo que implica uma transformação profunda.

Por essa razão, o humanismo digital deve dialogar com os discursos transumanistas, a fim de compreender melhor os desafios e implicações dessa nova configuração cultural. O humanismo digital propõe, portanto, pensar essa integração de forma crítica, consciente e responsável. Ele busca compreender como as tecnologias digitais transformam nossas práticas, nossos modos de produção do conhecimento e nossas formas de sociabilidade, sem perder de vista os valores fundamentais que estruturam a vida humana.

Nesse sentido, o humanismo digital não é um retorno ao passado, nem uma simples adaptação ao presente tecnológico. Ele é, antes, uma tentativa de redefinir o lugar do humano em um ambiente profundamente transformado pela técnica.

DOUEIHI, Milad. Pour un humanisme numérique (Para um Humanismo Digital). Paris: Seuil, 2011.

Version 1.0.0

Pedagogia do oprimido, Paulo Freire

Sinopse:

PEDAGOGIA DO OPRIMIDO, escrita entre 1967 a 1968, quando Paulo Freire estava exilado no Chile, foi proibido pela ditadura civil-militar do Brasil, onde permaneceu inédito até 1974. Ancorado em situações concretas, este livro desvela as relações dos opressores e pelo medo da liberdade que os oprimidos sentem. É um livro radical, sobre o conhecer solidário, o amor, o diálogo e a esperença. Aborda a luta pela desalienação, pelo trabalho livre, pela afirmação dos seres humanos como pessoas, e não coisas. É destinado aos revolucionários, que se comprometem com os oprimidos, para, com eles e ao lado deles, lutar na construção de um mundo em que seja mais fácil amar.

Citações:

“Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual, se propõem a si mesmos como problema. Descobrem que pouco sabem de si, de seu ‘posto no cosmo’, e se inquietam para saber mais. Estará, alías, no reconhecimento do seu puco saber de si uma das razões desta procura” (Freire, 2024, p. 39).

“A violência dos opressores, que os faz também desumanizados, não instaura uma outra vocação – a do ser menos. Como distorção do ser maiss, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra que os fez menos. E esta luta somente tem sentido, quando os oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade de ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si e aos opressores” (Freire, 2024, p. 41).

Estes, que oprimem, exploram e violetam, em razão de seu poder, não podem ter, neste poder, a força da libertação dos oprimidos nem de si mesmos. Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientente forte para libertar a ambos. Por isto é que o poder dos opressores, quando se pretende amenizar ante a debilidade dos oprimidos, não apenas quase sempre se expressa em falsa generosidade, como jamais a ultrapassa” (Freire, 2024, p. 41).

“Talvez dês esmolas. Mas, de onde as tiras, senão de tuas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbolo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo” (São Gregório de Nissa – Sermão contra os usurários (330-395) apud Freire, 2024, p. 42).

“[…] em certo momento de sua experiência existencial, os oprimidos assumem uma postura que chamamos de ‘aderência’ ao opressor. Nestas circustâncias, não chegam a ‘admirá-lo’, o que os levaria a objetivá-lo, a descobri-lo fora de si. […] Daí esta quase aberração: um dos polos da contradição pretendendo não a libertação, mas a identificação com o seu contrário. […] a sua visão do homem novo é uma visão individualista. A sua aderência ao opressor não lhes possibilita a consciência de si como pessoa, nem a consciência de classe oprimida. […] Desta forma, por exemplo, querem a reforma agrária, não para se libertarem, mas para passarem a ter terra e, com esta, torna-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados. […] Raros são os camponeses que, ao serem ‘promovidos’ a capatazes, não se tornam mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo” (Freire, 2024, p. 44-45).

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido: saberes necessários à prática educativa. 78 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2024.

Pedagogia da Autonomia, Paulo Freite

Sinopse:

PEDAGOGIA DA AUTONOMIA, publicado em 1996, reafirma o profundo compromisso ético de Paulo Freire na defesa da existência digna. Neste seu último livro publicado em vida, o educador aprofunda sua teoria-ética de uma vida voltada para a liberdade, a verdade e a autenticidade dos sujeitos, contra a lógica do capital. A partir do amor revolucionário e do rigor crítico, reflete sobre o que o ato de ensinar exige de educadores e educandos.

Citações

“É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibililidades para a sua produção ou a sua construção” (Freire, 2024, p. 24).

“[…], quem forma se forma e re-forma ao formar e que é formado forma-se e forma ao ser formado. É neste sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (Freire, 2024, p. 25).

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