Sinopse:
As estórias em quadrinhos continuam ocupando um dos lugares centrais da cultura de massa: sua ideologia ainda é capaz de mobilizar milhões de consumidores em torno de objetivos políticos e culturais bastante concretos. É o que nos mostra este livro, através de uma leitura crítica fundada no marxismo e voltada para alguns dos problemas que forma, aqui e agora, os complexos meadros da(s) cultura(s) brasileira(s).

Citações:
“Não existem quadrinhos inocentes, assim como não existem leitura inocente (cf. Althusser) e livros inocentes (cf. Macherey). As estórias em quadrinhos procuram ‘ocultar’ sua verdadeira ideologia através de fórmulas temáticas muitas vezes simples ou simplistas, fazendo da redundância (a repetição em série imposta pela engrenagem operacional da cultura de massa) o lugar de sua representação: Tio Patinhas, Mickey, Zorro, Fantasma, Tarzan, Super-Homem, Batman, Capitão América, Capitão Marvel, Homem de Ferro, Home de Borracha, Brotoeja, Riquinho – para citar apenas alguns exemplos conhecidos – expressam uma ideologia conservadora e/ou reacionária” (Cirne, 1982, p. 11).
“Por outro lado, nada mais reacionário, nada mais elitista, do que afirmar que os quadrinhos não merecem uma análise ‘repeitosa’, como a que se faz com um Joyce (ou Faulkner, Kafka, Mann, Borges, Pound, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, e assim por diante). Trata-se de um preconceito instituído entre aqueles que ‘cultuam’ as formas dominantes da(s) ideologia(s) – de igual modo – dominante(s). Daí o porquê de uma leitura pensada criticamente, sem ignorar a problemática do prazer do consumo gerado pelas curtições provocadas por um Flash Gordon, por um Ferdinando, por um Corto Maltese, pelos quadrinhos de Henfil, Chico Caruso, Luiz Gê e tantos outros” (Cirne, 1982, p. 12).
“Assim é a história dos quadrinhos – uma história que se liga à história dos avanços técnicos da imprensa, à história da ilustração e da caricatura, à própria história do cinema” (Cirne, 1982, p. 15).
“Se entendermos o discurso artístico e/ou literário como uma produção social de signos, como uma prática significante de significados concretos, nada mais justo do que procurar na semiologia a base crítica para uma leitura materialista dos seus produtos5. Se entendermos as estórias em quadrinhos como uma região semiológica da linguagem da arte, compreender-se-á as marcas, os recuos e os avanços de nossa preocupações teóricas e críticas: contribuir, na medida do possível, para estabelecer os parâmetros de uma semiologia dos quadrinhos” (Cirne, 1982, p. 15-16).
5. Qual a semiologia que nos interessa? A semiologia que se fundamenta no marxismo-leninismo e que existe no espaço de uma produção cultural mobilizada no interior do político, do econômico e dos parâmetros sociais da realidade. Uma semiologia que se pensa a partir de Marx, Engels e Lênin e que, decerto, passa por Peirce, Saussure, Bakhtin, Kristeva e outros.
“Para nós, portanto, os quadrinhos formam-se como um agenciamento/desencadeamento de imagens que se estruturam e se articulam a partir de cortes espaciais e temporais, e gráficos, acarretando um tempo narrativo capaz de problematizar o tempo de leitura. Sua especificidade, em assim sendo, é a especificidade de um discurso gráfico-narrativo que se dá através de ‘saltos conteudísticos’ (os cortes)” (Cirne, 1982, p. 18).
“Ao contrário do cinema, que gerou seu próprio veículo, o quadrinhos necessitou de um veículo alheio: o jornal. Das páginas semanais às tiras diárias e – muito tempo depois – às revistas exclusivas, o quadrinho construiu sua especificidade como indústria cultural” (Cirne, 1982, p. 19).
“Discurso ideológico, o quadrinho é também discurso que se faz político (ao nível de sua especifidade). Asism como o ideológico manifesta-se nos mais variados níveis de articulação formal, o político manifesta-se em todos os níveis, seja de modo direto, seja de modo indireto. Seja de modo crítico, seja de modo ideológico” (Cirne, 1982, p. 20).
“Faz-se necessário, portanto, uma arte de resistência, um quadrinho de resistência, seja politicamente, seja culturalmente. Uma arte e um quadrinho de resistência, inclusive ao nível econômico, devem lutar por um espaço artístico, semiológico e cultural próprio, ao lado daqueles que combatem qualquer espécie de imperialismo” (Cirne, 1982, p. 21).
CIRNE, Moacy. Uma introdução política aos quadrinhos. Rio de Janeiro: Angra/Achiné, 1982.


