Termo de colaboração FIQ! 2026

No dia 29/07/2026, no Portal das Parcerias da Prefeitura de Belo Horizonte, foi publicado o Termo de Colaboração da Fundação Municipal de Cultura e a OSC Amicult, objetivando a execução da 13ª e 14ª edições do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ!BH).

Chamamento Público FMC n. 002/2026.

No Plano de Trabalho, a OSC apresenta alguns dados da Edição de 2024 do FIQ!BH:

  • 93 quadrinistas convidados, locais e nacionais
  • 6 artistas internacionais (Reino Unido, Uruguai, França, Dinamarca, Itália e Espanha)
  • 2 artistas nacionais homenageados (Evandro Alves e Ana Luiza Koehler)
  • 400 artistas vindos de 22 estados do Brasil
  • 266 mesas
  • 16 estandes
  • 3500 alunos da Rede Municipal de Ensino
  • Rodada de negócios com 15 editoras e 150 quadrinistas
  • 42 mil pessoas

Sobre a edição de 2026, alguns pontos e uma análise critica do que foi apresentado como proposta

13ª Edição 2026 – Retratos da leitura: formação cidadã a partir dos quadrinhos (p. 35)

Em 2024, a sexta edição da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”1 foi realizada pelo instituto Ipec e tevecomo objetivo “conhecer o comportamento do leitor medindo intensidade, forma, limitações, motivação,representações e as condições de leitura e de acesso ao livro – impresso e digital – pela população brasileirana atualidade”. Esse tipo de trabalho, muito importante para que sejam identificados os avanços, retrocessose as deficiências de leitura no país, busca abranger todo o mercado editorial. No entanto, dentro do “retrato”do campo editorial mais amplo, muitas vezes perde-se justamente as especificidades do mundo dos quadrinhos.

Se for levado em conta o conceito de “campo”, como colocado pelo sociólogo Pierre Bourdieu, pode-se discutirse existe ou não um campo dos quadrinhos. Pesquisadores como Luc Boltanski sugeriram, ainda na décadade 1970, que o campo das HQs, em especial na França, estava em plena constituição, ganhando autonomia,reconhecimento e legitimação. Outros pesquisadores, mais recentemente, se perguntam se a legitimação foide fato efetiva. Ainda assim, percebe-se que os quadrinhos possuem relativa autonomia perante o mercadoeditorial. As diferenças sobre o suporte, às necessidades produtivas, a circulação e os momentosmercadológicos que não necessariamente seguem as tendências editoriais mais amplas demonstram que,para compreender melhor o retrato da leitura no país, é preciso compreender melhor o retrato da leitura dequadrinhos em si.

A maior produção de quadrinhos nos últimos anos colocou o desafio de entender como toda essa diversidadeautoral e narrativa pode encontrar respaldo em uma sociedade igualmente diversa, mas marcada por estigmase senso comum a respeito das histórias em quadrinhos.

O Festival Internacional de Quadrinhos é um palco privilegiado para que seja montado esse complexo retratodo campo. No entanto, mais do que observar ou só analisar, o conceito se realiza como uma proposta deintervenção na nossa realidade: se o FIQ é tão central para a cultura dos quadrinhos no Brasil, qual retrato deleitura se quer ver para os quadrinhos no nosso presente e no futuro?

Essa chamada é a força motivadora para estreitar laços entre quem produz e quem lê quadrinhos, pensandona importância desse gesto e na formação cidadã que a leitura de obras de narrativa sequencial pode ter paraas pessoas em um mundo de cada vez mais apelo visual.


14ª Edição 2028 – Relatar e fabular: traçando tempos possíveis e impossíveis (p. 36)

Uma vez trabalhada a formação cidadã promovida por meio da leitura e construção dos quadrinhos, apossibilidade de se voltar o foco para o exercício criativo na edição seguinte apresenta-se como alternativainteressante. Isso porque, uma vez analisado o papel de formação exercido pela leitura dos quadrinhos, oconteúdo, as elaborações narrativas, os enredos, os traços e desenhos passam a ser de maior interesse.

Muitas vezes os quadrinhos são relacionados à criação de um mundo mágico, ficcional. Essa talvez tenha sidoa tônica principal da mídia durante a primeira metade do século XX. No entanto, com a mudança e adiversificação do público a partir dos anos 1950, a própria construção narrativa das HQs foi ganhando novosespaços, tanto nos suportes impressos (jornais, revistas, álbuns, livros) como na recepção do público leitor,algo que, por sua vez, pressionava as autoras e os autores a fazerem histórias mais diversas. No consequentemovimento de busca de valorização e legitimação do meio, relatos jornalísticos, históricos e autobiográficospassaram a ganhar mais espaço e, em boa parte das vezes, direcionar o discurso sobre os rumos dosquadrinhos.

No entanto, olhando para a história e o desenvolvimento da mídia, pode-se considerar que essa diferença talvez não seja tão estrutural assim. A pesquisadora Saidiya Hartman, ao tentar fazer história sobre garotasrebeldes no Harlem no início do século XX, se depara com um enorme vazio documental. A resposta dela éjustamente preencher esse vazio com a “fabulação crítica”, uma elaboração rigorosa que imagina os cenáriospossíveis da realidade. O movimento contrário também tem sido cada vez mais reconhecido: diversas vezesautores explicitam o poder das narrativas ficcionais para a melhor compreensão da realidade que estamosinseridos.

Sem precisar ficar medindo o quanto de relato existe em uma fabulação, ou o quanto uma pessoa fabulou naconstrução de um relato, tem-se como ponto comum a potência da elaboração narrativa em quadrinhos. Entrea diversidade narrativa encontrada nas histórias em quadrinhos, observa-se o esforço de construir, por meioda narrativa visual, um passado, presente, futuro e tempos impossíveis.

A passagem de tempo dentro das páginas de quadrinhos se dá tanto pela justaposição dos elementosdesenhados como dos espaços vazios deixados. Quando se olha para dentro das páginas de uma HQ, sãovistas representações variadas dessas múltiplas temporalidades. Ao projetar seu olhar para esses recortes detemporalidades, quadrinistas também irão construir novos projetos críticos de tempos para seus leitores. Dedentro para fora e de fora para dentro, relatando e fabulando, a mídia é influenciada pelo tempo presente assimcomo o tempo é transformado por essas histórias.

Desta forma entende-se que o planejamento integrado de duas edições oportuniza uma “passagem de bastão”temática entre os eventos, colaborando para melhor compreensão da importância do mercado dos quadrinhospara o desenvolvimento cidadão, econômico e cultural dos territórios.


CENTRALIZAÇÃO (p. 38)

É recomendável que o evento se realize em local central de fácil acesso do público e com estrutura adequadapara abrigar suas múltiplas atividades, proporcionando melhor setorização dos espaços, conforto aosparticipantes e interação com ativos culturais e turísticos da cidade. Tem-se, como ideal, que as instalaçõesdo festival sejam definidas quando da elaboração do plano de trabalho, momento em que se iniciam osmovimentos de parcerias institucionais para a realização do evento. Importante registar que, após análise dasúltimas edições, a localização deve priorizar o fluxo e receptivo do público, que determina o sucesso dasedições vindouras, bem como deve comportar logística de embarque e desembarque de grupos escolarescomumente articulados em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte.

Aqui há uma falha no projeto que propõe uma centralização das ações culturais do evento somente no centro da cidade, desconsiderando as diretrizes de descentralização que a política cultura da cidade estabelece.


AMBIENTE SEGURO (p. 39)

Por fim, para melhor planejamento e organização de visitas escolares, será necessário articular e alinhar ocusteio de vale-livros por parte da Secretaria Municipal de Educação, bem como definir prazos e procedimentospara uso e pagamento dos mesmos aos quadrinistas, bem como criar um fluxo direto de contato com as escolaspara confirmação de número de alunos e profissionais de educação que irão ao evento, com o objetivo dereduzir quebras de participação.

Nos dias anteriores à montagem dos eventos serão implementadas ações junto aos parceiros e fornecedorespara garantia de ambiente seguro e acolhedor para público e convidados, com orientações acerca deabordagens e procedimentos para prevenção de qualquer tipo de discriminação e/ou violência, minimizaçãode riscos e conflitos, gestão de crises e acidentes, atendimento de crianças e adolescentes e outros critériosrelacionados ao comando, controle, coordenação e comunicação do projeto. As orientações poderão serdifundidas por meio de reuniões presenciais, on-line ou de documentos distribuídos aos envolvidos.

Após vereadores da cidade fazerem acusações (infundadas) sobre o acesso de crianças a conteúdos adultos na última edição, a proposta focará na garantia de ambiente seguro, seguindo o ECA e evitar novas polêmicas.


REUNIÕES PÚBLICAS (p. 42)

Frente 1 – Realização de reuniões públicas com quadrinistas e editores locaisEstão previstas 3 reuniões públicas com quadrinistas, editores e outros públicos de interesse, para escuta ativae efetiva de pontos de interesse, melhoria e fragilidades do festival, com o objetivo de aprimorar o planejamentodas 13ª e 14ª edições, bem como colaborar para a formatação da 15ª edição. A realização de fóruns de escutae discussão é uma ferramenta valiosa de engajamento e mobilização comunitária, que auxilia na percepçãode pertencimento e construção colaborativa do festival.

Após uma ausência de 8 anos – a última reunião pública do FIQ aconteceu em 2018 – o FIQ voltará a se reunir publicamente com os agentes culturais da cidade.


REMUNERAÇÃO DE ARTISTAS, PALESTRANTES E OUTROS CONVIDADOS (p. 66)

A planilha orçamentária compreende a contratação de 62 convidados internacionais, nacionais e locais, além de 40 oficinas educativas de iniciação e 6 avançadas (master classes). As demais atrações artísticas ou incrementos de convidados e oficineiros serão viabilizadas por meio de parcerias ou patrocínios, caso captados, perfazendo na somatória das edições 2026 e 2028, um total de 80 convidados para composição de palestras e mesas de debate, sendo 4 internacionais, 40 nacionais e 26 locais/regionais.


RECEITA ADICIONAL (p. 68)

Estima-se uma projeção de vendas de aproximadamente 200 de mesas ao valor de R$ 700,00/mesa (R$140.000,00) e 240m² de estandes para editoras e livrarias, ao valor de R$ 500,00/m² (R$ 120.000,00),totalizando receita projetada de R$ 260.000,00.


OFICINAS (p. 69)

Tendo em vista a ampliação de possibilidades para a realização da 13ª edição do FIQ BH e considerando o prazo exíguo para a captação de recursos financeiros em mecanismos de fomento à Cultura, propomos a articulação com projetos já em realização na cidade, especialmente os promovidos por coletivos artísticos e instituições e empresas que se dedicam aos quadrinhos, animação, jogos eletrônicos, literatura e cultura em geral.

[…]

Para realização de oficinas masterclass e de iniciação, serão articuladas parcerias com as escolas de desenho, tais como Casa dos Quadrinhos (em BH), Inko e Quanta (em SP).

O favorecimento de empresas na programação do FIQ foi pauta de questionamento na Reunião do Conselho Municipal de Política Cultura. Houve a reinvindicação que a definição das oficinas seja feita por meio de processo seletivo e não através de indicação direta.