Sinopse:
EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE foi escrito em 1967, durante o exílio forçado de Paulo Freire no Chile. É este o livro em que Freire detalha as complexas forças que perpassam a relação dos seres humanos com o mundo, no contexto brasileiro, e propõe a execução prática, em cinco fases, do seu Método de Alfabetização. Objetiva com isso alcançar a educação que liberta seres humanos da condição de oprimido e os insere na sociedade como forças transformadoras, críticas, politizadas e responsáveis por todas as pessoas que a integram.

Citações
“NÃO HÁ EDUCAÇÃO FORA DAS SOCIEDADES humanas e não há homem no vazio” (Freire, 2024, p. 51).
“A educação das massas se faz, assim, algo de absolutamente fundamental entre nós. Educação que, desvestida da roupagem alienada e alienante, seja uma força de mudança e de libertação. A opção, por isso, teria de ser, também entre uma ‘educação’ para a ‘domesticação’, para a alienação, e uma educação para a liberdade. ‘Educação’ para o homem-objeto ou educação para o homem-sujeito” (Freire, 2024, p. 52).
“Sempre lhe pareceu, dentro das condições históricas de sua sociedade, inadiável e indispensável uma ampla conscientização das massas brasileiras por uma educação que as colocasse numa postura de autorreflexão e de reflexão sobre seu tempo e seu espaço. […] Autorreflexão que as levará ao aprofundamento consequente de sua tomada de consciência e de que resultará na sua inserção na história, não mais como espectadoras, mas como figurantes e autoras” (Freire, 2024, p. 52).
“Nunca pensou, contudo, […], que a defesa e a prática de uma educação assim, […] pudesse ser aceita por aquelas forças, cujo interesse básico estava na alienação do homem e da sociedade brasileira. […] estas forças distorcem sempre a realidade e insistem em aparecer como defensoras do homem, de sua dignidade, de sua liberdade, apontando os esforços de verdadeira libertação como ‘perigosa subversão’, como ‘massificação’, como ‘lavagem cerebral’ – tudo isso produto de demônios, inimigos do homem e da civilização ocidental cristã. Na verdade, elas é que massificam, na medida em que domesticam e endemoniadamente se ‘apoderam’ das camadas mais ingênuas da sociedade” (Freire, 2024, p. 52-53).
“É fundamental, contudo, partirmos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não apenas está no mundo, mas com o mundo. Estar com o mundo resulta de sua abertura à realidade, que o faz ser o ente de relações que é” (Freire, 2024, p. 55, grifo nosso).
“Herdando a experiência adquirida, criando e recriando, integrando-se às condições de seu contexto, respondendo a seus desafios, objetivando-se a si próprio, discernindo, transcedendo, lança-se o homem num domínio que lhe é exclusivo – o da história e o da cultura” (Freire, 2024, p. 58).
“A integração ao seu contexto, resultante de estar não apenas nele, mas com ele, e não a simples adaptação, acomodação ou ajustamento, comportamento próprio da esfera dos contatos, ou sintomas de sua desumanização” (Freire, 2024, p. 58).
“A sua participação, que implica uma tomada de consciência apenas e não ainda uma conscientização – desenvolvimento da tomada de consciência -, ameaça as elites detentoras de privilégios. Agrupam-se então para defendê-los. Num primeiro momento, reagem claramente a ameaça contida na tomada da consciência por parte do povo. Arregientam-se. Atraem para si os ‘teóricos’ de ‘crises’, como, de modo geral, chamam ao novo clima cultural. Criam instituições assistenciais, que alongam em assistencialistas. E, em nome da liberdade ‘ameaçada’, repelem a participação do povo. Defendem uma democracia sui generis em que o povo é um enfermo, a quem se aplicam remédios. E sua enfermidade está precisamente em ter voz e participação” (Freire, 2024, p. 75-76).
“As condições estruturais de nossa colonização não nos foram, porém, favoráveis. Os analistas, sobretudo os de nossas instituições políticas, insistem na demonstração dessa inexperiência. Inexperiência democráica enraizada em verdadeiros complexos culturais” (Freire, 2024, p. 90).
” Realmente o Brasil nasceu e cresceu dentro de condições negativas às experiências democráticas. O sentido marcante de nossa colonização, fortemente predatória, à base da exploração econômica do grande domínio, em que o ‘poder do senhor’ se alongava ‘das terras às gentes também’ e do trabalho escravo inicialmente do nativo e posteriormente do africano, não teria criado condições necessárias ao desenvolvimento de uma mentalidade permeável, flexível, características do clima cultural democrático, no homem brasileiro” (Freire, 2024, p. 90-91).
“A nossa colonização foi, sobretudo, uma empreitada comercial. Os nosso colonizadores não tiveram – e dificilmente poderiam ter tido – intenção de criar, na terra descoberta, uma civilização. Interessava-lhes a exploração comercial da terra” (Freire, 2024, p. 91).
“O Brasil nasceu e crescu sem experiências de diálogo. De cabeça baixa, com receio da Coroa. Sem imprensa. Ser relações. Sem escolas. (Freire, 2024, nota de rodapé 30, p. 90).
“Faltou aos colonos que para cá se dirigiram ânimo fundamental […] Com a terra nova. Sua intenção prepoderante era realmente a de explorá-la. A de ficar ‘sobre’ ela. Não a de ficar nela e com ela. Integrados. Daí dificilmente virem animosos de trabalhá-la. De cultivá-la” (Freire, 2024, p. 92).
“Com a chegada de d. João VI ao Rio de Janeiro, o patriciado rural, que se consolidara nas casas-grandes de engenhos e de fazendas […] começou a perder a sua majestade dos tempos coloniais. Majestade que a descoberta das minas, acrescenta, já vinha comprometendo.
Esta transferência de poder ou de majestade do patriciado rural, consolidado nas ‘casas-grandes’, para as cidades, então começando a tormar posição diferente – participante – na vida do país, porém, não significava ainda a participação do homem comum na sua comunidade. A grande força das cidades estava na burguesia que se fazia opulenta, enriquecendo no comércio e substituindo o todo-poderosismo do campo” (Freire, 2024, p. 104).
“Só a partir da ‘rachadura’ da sociedade brasileira e de sua entrada na recente fase de transição, mais fortemente neste século, é que se pode falar de um ímpito popular. De uma voz do povo, com a sua emersão” (Freire, 2024, p. 105).
“Mas foi exatamente neste século, na década de 1920 a 1930, após a Primeira Grande Guerra, e mais enfaticamente depois da Segunda, que o nosso urto de industrialização, em certo sentido desordenado, recebeuo seu grande impulso” (Freire, 2024, p. 111).
“O país começava a encontrar-se consigo mesmo. Seu povo emerso iniciava as suas experiências de participação ” (Freire, 2024, p. 112).
“Estávamos e estamos convencidos, com Lipset de que ‘o aumento da riqueza não está somente relacionado ao desenvolvimento da democracia para alterar as condições sociais dos trabalhadores; na realidade, ela atinge também a forma de estrutura social, que deixa de ser representada como um alongado triângulo para transformar-se num losangulo com uma classe média sempre crescente. A renda nacional relaciona-se sempre com os valores políticos e o estilo de vida da classe dominante. Tanto mais pobre seja uma nação, e mais baixos os padrões de vida das classes inferiores, maior será a pressão dos estratos superiores sobre elas, então consideradas desprezíveis, inatamente inferiores, na forma de uma casta de nenhum valor. As diferenças acentuadas no estilo de vida entre aquelas de cima e as de baixo apresentam-se como psicologicamente necessárias. Consequentemente, os mais altos estratos tendem a encarar os direitos políticos dos mais baixos, particularmente o de interferir no poder, como coisa absurda e imoral’ ” (Freire, 2024, p. 114).
“Na medida, porém, em que as classes populars emergem, descobrem e sentem esta visualização que delas fazem as elites, inclinam-se, sempre que podem, a respostas autenticamente agressivas. Estas elites, assustadas, na proporção em que se encontrarm na vigência de seu poder, tendem a fazer silenciar as massas populares, domesticando-as com a força ou soluções paternalistas” (Freire, 2024, p. 114).
“A produção em série, como organização de trabalho humano, é, possivelmente, dos mais instrumentais fatores de massificação do homem no mundo altamente técnico atual. Ao exigir dele comportamento mecanizado pela repetição de um mesmo ato, com que realiza uma parte apenas da totalidade da obra, de que se desvincula, ‘domestica-o’ ” (Freire, 2024, nota de rodapé 56, p. 118).
“Acrescentemos porém que, ao não só defendermos, mas até enaltecermos o processo de rebelião do homem brasileiro, não estávamos nem mesmo longinquamente pretedento uma posição espontaneísta para essa rebelião. Entendíamos a rebelião como um sintoma de ascensão, como uma instrudução à plenitude. Por isso mesmo é que nossa simpatia pela rebelião não poderia ficar nunca nas suas manifestações preponderantemente passionais. Pelo contrário, nossa simpatia estava somada a um profundo senso de responsabilidade que sempre nos levou a lutar pela promoção inadiável da ingenuidade em criticidade. Da rebelião em inserção” (Freire, 2024, p. 121).
“A rebelião se manifesta por um conjunto de disposições mentais ativistas, nascidas dos novos estímulos, característicos da sociedade em aprendizado da ‘abertura’. A emersão um tanto brusca feita pelo povo do seu estado anterior de imersão, em que não realizara experiências de participação, deixa-o mais ou menos atônito diante das novas experiências a que é levado: as de participação. A rebelião é fartamente ingênua e, por isso mesmo, carregada de teor emocional. Daí a necessidade de ser transformada em inserção” (Freire, 2024, Nota de rodapé 61, p. 121).
“O nosso grande desafio, por isso mesmo, nas novas condições da vida brasileira, não era só o alarmante índice de analfabetismo e a sua superação. Não seria a exclusiva superação do analfabetismo que levaria a rebelião popular à inserção. A alfabetização puramente mecânica. O problema para nós prosseguia e transcendia a superação do analfabetismo e se situava na necessidade de superarmos também a nossa inexperiência democrática. Ou tentarmos simultaneamente as duas coisas” (Freire, 2024, p. 124).
“A educação é um ato de amor e, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa” (Freire, 2024, p. 127).
“Daí a necessidade que sentíamos e sentimos de uma indispensável visão harmônica entre a posição verdadeiramente humanista, mais e mais necessária ao homem de uma sociedade em transição como a nossa, e a tecnológica. Harmonia que implicasse a superação do falso dilema humanismo-tecnologia e que, quando da preparação de técnicos para atender ao nosso desenvolvimento, sem o qual feneceremos, não fosse eles deixados, em sua formação, ingênua e acriticamente, postos diante de problemas outros que não os de sua especialidade” (Freire, 2024, p. 128).
(Freire, 2024, p. )
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 57 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2024.


