Mais além da cultura : espaço, identidade e política da diferença

Citação

“Outra direção promissora promissora que nos leva adiante da cultura como fenômeno espacialmente localizado é proporcionada pela análise do que é chamado de ‘meios de comunicação de massa’, ‘cultura pública’ e ‘indústria cultural’. (Nisso, tem sido muito influente a revista Public Culture.) Existindo simbioticamente com a forma de mercadoria, influenciando profundamente os povos mais remotos de cujo estudo os antropólogos fizeram um tal fetiche, os mass media apresentam o desafio mais claro às noções ortodoxas de cultura. É claro que as fronteiras locais, regionais e nacionais nunca contiveram a cultura de maneira como supunham amiúde as representações antropológicas. Porém, a existência de uma esfera pública transnacional significa que não é mais possível sustentar a ficção de que essas fronteiras encerram culturas e regulam trocas culturais.

A produção e distribuição da cultura de massa – filmes, programas de rádio e televisão, jornais, discos, livros, concertos ao vivo – é controlada, em larga medida, por aquelas organizações notoriamente sem lugar, as empresas multinacionais. A ‘esfera pública’ é, portanto, dificilmente pública no que se refere ao controle sobre as representações que nela circulam. Os trabalhos recentes nessa área enfatizam os perigos de reduzir a recepção da produção cultural multinacional ao consumo passivo, não deixando espaço para a criação ativa de agentes de disjunções e deslocamentos entre fluxo de mercadorias industriais e produtos culturais. Preocupa-nos, porém, da mesma forma, o perigo oposto de celebrar a inventividade dos ‘consumidores’ da indústria cultural (especialmente na periferia), que adaptam de maneira bastante diferente os produtos a eles vendidos, reinterpretando-os e refazendo-os, às vezes, numa direção que promove a resistência em vez do conformismo. O perigo, aqui, reside na tentação de usar os exemplos dispersos dos fluxos culturais que gotejam da ‘periferia’ para os principais centros da indústria cultural como um maneira de descartar a ‘grande narrativa’ do capitalismo (em especial, a narrativa ‘totalizante’ do capitalismo tardio) e, assim, evitar as poderosas questões políticas associadas à hegemonia global do Ocidente” (Gupta, 2000, p. 45-46).

GUPTA, Akhil; FERGUSON, James. Mais além da “cultura”: espaço, identidade e política da diferença. In: ARANTES, A.A. (org). Espaço da diferença. Campinas: Ed. Unicamp, 2000, p. 31-49.