Trecho: O povo brasileiro, de modo geral, lê muito pouco. As mulheres lêem em menor escala, e as jovens, proporcionalmente, não liam nada até o advento dêsse tipo de revista. Essa preguiça mental encontra eco no cinema, no rádio e na televisão, que suprem a percentagem de sonho e de vida imaginativa que cada um tem dentro de si, – mais fortemente as jovens, que ainda não atravessaram experiências “diferentes”. O romance em quadrinhos veio ao encontro do fator juventude + preguiça mental + sonho, e formou seu público, que vai de 14 a 22 anos de idade. O índice de mulheres solteiras é superior. É um público específico, que só lê fotonovela, e que pertence à classe média (B1, B2 e C) para baixo.
É um tipo de leitura prejudicial à formação intelectual dos jovens? Os puritanos afirmarão que sim, que cada quadrinho nada mais é do que uma gôta de veneno destilado. Os proprietários das emprêsas acham que não, que suas revistas são um bom subsídio para quem, por princípio, não lê nada. Mas mesmo que se concorde com sua influência perniciosa, nada há que fazer, pois elas já se constituíra num mal necessário. Uma aspiração utópica seria a de querer que elas contivessem histórias moralizantes (mas o adultério é o tema principal…), e que abolisse tudo que fira a lei e os costumes.
Suplemento Semanal Hora Cero, quadrinhos argentinos lançado em 1957 pelo editor e roteirista Héctor Oesterheld (Eternauta), com desenho de Hugo Pratt, Francisco Solano, entre outros artistas.
Em 8 de abril de 1952 chegava às bancas uma nova edição da revista d’O Pato Donald. Editado pela Editora Abril, esse número 22 trouxe uma novidade. Era a primeira revista em quadrinhos do Brasil a ser publicada no formato 13×21 cm, que ficou conhecido no país como “formatinho”.
O formatinho brasileiro se baseou na edição italiana da Disney chamada Topolino (como é conhecido o Mickey Mouse por lá). Durante a Segunda Guerra Mundial, Topolino ficou dois anos paralisado. Quando retornou as vendas, o país vivia as consequências sociais e econômicas da guerra. Em 1949, a editora Mondadori pensou em uma estratégia para aumentar as vendas reformulando o formato da revista, inspirado na revista de variedades chamada Reader’s Digest. A publicação semanal passaria a ser mensal e teria 100 páginas. A edição 738 foi a última desta série, passando a ser publicada a edição seguinte usando a numeração 1. Os leitores gostaram e as vendas voltaram a aumentar.
O tamanho permitia um melhor aproveitamento do papel de gráfica, sendo possível imprimir até 18 páginas por folha. Esse aproveitamento possibilitava imprimir revistas com uma quantidade maior de páginas, com um custo mais em conta. A Abril usou o formato em outras revistas além da Disney, sendo seguido por outras editoras no Brasil.
Em adaptações, como nas revistas em quadrinhos de super heróis feitas em formato americano (17×26 cm), trazia alguns prejuízos, como a redução da arte, a exclusão de algumas páginas da história para caber na revista e a redução de textos dos diálogos dos balões.
Atualmente revistas como Disney e Turma da Mônica ainda utilizam o formato. A editora Panini, quando adquiriu os direitos de publicar os heróis da Marvel e DC, voltam a publicar as histórias no tamanho original das revistas norte-americanas.
Realizada entre 19 de junho e 2 de julho de 1951, no Centro Cultura e Progresso em São Paulo, foi a primeira exposição de quadrinhos do Brasil que reunia exposições e trazia debates e reflexões para a valorização das histórias em quadrinhos no país.
Idealizada por Álvaro de Moya, Jayme Cortez, Syllas Roberg, Reinaldo de Oliveira e Miguel Penteado.
“Uma das artes modernas mais combativas e discutidas do momento é a história em quadrinhos. Enquanto uns a reconhecem como uma das maiores exteriorizações de todos os tempos, e a mais jovem dentre as demais, há instituições e pessoas que a combatem intransigentemente e confundem história em quadrinho com habilidade, comercio ou simples técnica. A polêmica está lançada.
E, com o intuito de lançar mais luz sobre este momentoso problema, e esclarecer ao público e à crítica em geral o extraordinário índice artístico e social alcançado por esta nova arte, o CENTRO CULTURA E PROGRESSO entrou em contacto com o STUDIOARTE, formado por jovens desenhistas desta Capital, que organizaram a 1ª EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS, que se realizará em nossa sede social de 19 do corrente a 2 de julho próximo.”
Jornal Nossa Voz – Fonte Hemeroteca Biblioteca Nacional
1ª Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos
Jonal Nossa Voz – 28 de junho de 1951 Autor: Maurício Kuss
Sob o patrocínio do CENTRO CULTURAL E PROGRESSO realiza-se presentemente, em sua sede social, a 1ª EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA EM QUADRINHOS, organizada pelo STUDIOARTE, formada por jovens desenhistas desta Capital.
Trata-se de uma iniciativa de moços, honesta, levada, a efeitos com meios modestos, o que bata para torná-la uma realização bastante simpática e merecedora de uma demorada visita por parte de todos os interessados em qualquer espécie de arte moderna. Na Exposição pode-se verificar trabalhos originais e impressos de Alex Raymond (Flash Gordon), Harold Foster (Príncipe Valente), Milton Caniff (Steve Canyon), George Wunder (Terry e os Piratas), Al Capp (Li Abner), separados por blocos e tendências artísticas de cada um, conforme crítica explicativa feita para cada trabalho. Além disto, poderão todos notar os países do mundo, entre os quais se incluem amostra da Itália, Polônia, Canadá, Portugal, Argentina e muito outro países.
Porém, o mais importante da exposição não é este particular, puramente artístico, mas o fator social e educativo que a história em quadrinhos pode apresentar, aliado ao fato de que tal Exposição levantará seriamente um problema: o do desenhista nacional. Como é sabido, a grande maioria das histórias em quadrinhos publicadas no Brasil, provém dos Estados Unidos, não obstante, desenhistas de todo o mundo, inclusiva brasileiros, se dedicaram à esta forma de exteriorização dos conhecimentos humanos. Isto se dá em virtude de existência de alguns trustes que controlam toda a produção de histórias em quadrinhos , destacando-se dentre eles o “King Features Syndicates” e a “APLA”, com ramificações aqui no Brasil. Este reduzido número de cadeias de produção dos Estados Unidos, espalhado pelo mundo todo, vende aos proprietários de jornais e revistas, a preço vil, matrizes de papelão de histórias já publicadas nos Estados Unidos. Estas cadeias associam-se, por assim dizer, a quantos em cada país desejem produzir revistas infantis, deixando nas mãos de seus proprietários lucros fabulosos, tornando completamente impossível ao desenhista nacional competir, em preços, mas que poderia produzir leitura infantil mais digna, mais útil, mais bela, mais saudável.
A atenção do público para a exposição fará com que abram os olhos contra os habituais detratores da história em quadrinhos que a combatem intransigentemente sem ao menos conhecê-la e muitas vezes por estarem ligados a editoras de livros de histoiretas infantis sem tiragem. Ninguém pode, de boa fé, desconhecer as imensas possibilidades das histórias em quadrinhos como expressão artística e como instrumento de recreação e educação. E, se, infelizmente a maior parte delas prega a violência e conta histórias de super-homens e homens-borracha, cumpre por isso mesmo, e com urgência, separar o joio do trigo. Esclarecer a crítica e a opinião no sentido de preservar e ampliar as boas histórias, substituir as más, e incentivar os desenhistas nacionais que possam criar e adaptar temas brasileiros – este é o objetivo da Exposição. Tal objetivo é além de tudo patriótico, pois que, sem ter ligações com nenhuma organização ou entidade comercial, visa eliminar dertupações que vem sendo impostas à infância, por certos “capitalistas da imprensa” que se dedicam a publicação de histórias em sequências e que impedem o aparecimento de verdadeiros valores artísticos no domínio da histórias em Quadrinhos.
Em seguida surgiu a geração que ficou absorvida pela leitura do “Gibi” e outras publicações semelhantes. Crianças dessa geração são hoje rapazes, mas continuam atraidos por essa espécie de leitura que absolutamente nada de proveitoso lhes pode proporcionar. Oferece-lhe unicamente estupidez, no mais claro sentido que essa palavra apresente, dá-lhes uma visão falsa da vida.
[…]
Estou no conhecimento de que São Paulo se prepara uma campanha contra certa espécie de revistas que são dedicadas às crianças, mostrando os efeitos nocivos da leitura das atuais histórias em quadrinhos. Em 1945, numa das sessões do primeiro Congresso Brasileiro de Ecritores (sic) Juvenis, realizado em São Paulo, o assunto foi debatido com especial atenção e muito entusiasmo. A conclusão a que se chegou foi que essas histórias não tinham influência na mente das crianças. Penso o contrário. Acontece que muita gente que lê o “Gibi” e publicações no mesmo naipe não tem personalidade própria. Toda essa gente em seus costumes e atitudes, tem por modelo o cinema e nela a leitura se comunica acentuadamente. Todo o seu comportamento se subordina a esses elementos – cinema e leitura – no que têm de mais falso e condenável. […] Quero crer que essas histórias em quadrinhos dos nossos dias, preferidas pelas crianças (por culpa dos maiores e da sociedade), rapazes, muitos moços e até pela grande adulta propensa à leitura fazia de sentido e conteúdo, não representa nenhum perigo.
[…]
Nas estantes dessas bibliotecas deverão figurar revistas que lhes sejam de utilidade. O “Tiquinho” deverá estar nessas estantes e precisará ser passado pelos pequenos frequentadores de mão em mão.
Autor: Jimmy Rodrigues – Redator da Rádio Caxias do Sul
Biblioteca Pública – Jornal Caxias do Sul (1948)
Trecho:
Não é isso que se quer, mas isso não quer dizer, também, que está certo que tenhamos uma mentalidade de jornal, ou de histórias de quadrinhos que aparecem no Gibi. E notem bem: o jornal e mesmo os Gibis são muito interessantes, interessantes quanto variedade, e nunca quando constituem a exclusiva leitura de alguém. A propósito, Ruy Barbosa, uma vez, contou a alguns amigos um conto muito interessante que havia lido. Perguntaram-lhe, depois da narração, onde havia lido aquele conto. E o Águia de Haya, respondeu: “Parece que foi no Globo Juvenil”… Talvez isso seja apenas anedotas, mas mesmo como anedota serve para demonstrar que Ruy Barbosa lia tudo que lhe caia nas mãos. E não queriam dizer agora que Ruy Barbosa sorveu a sua vasta cultura no Globo Juvenil.
Em Caxias, como em todos os centros de civilização, há grandes males a sanar. Dentre muitos, um é o da leitura maléficas ou também de livros infantis que, pela ganância monetária, exploram as tendências instintivas da meninice e lhe corrompem a boa índole.
[…]
Haja vista o “Gibi” e o “Guri” e outras similares ao lado de certos opúsculos infantis que subvertem a imaginação da criança mediante o desenho caricaturista e o escrito bravateiro, animalesco e irrealisável.
[…] Pois bem, amigos ledores, compulsae o primeiro número de “Gibi” ou “Guri” que vos cair nas mãos e, oh! contradição, quem anda doutrinando a existência e possibilidade do milagre são precisamente os taes materialistas. Seus contos e apresentação, não já de fadas, são heroismos irrealisaveis de super-homens que, suplantando tudo, milagrosamente, sagraram se afinal heróes vencedores mediante todas as moralidades de arrôjo, de crime, de prestidigitação; feitos irrealisaveie para o comum dos homes.
[..]
Em desta artem vão adquirindo formação completamente negativa, seja no gosto pela arte, seja no conceito da vida, seja no uso de suas faculdades. […]
Há bem pouco tempo, deu-se um episódio que vem testemunhar a veracidade das conclusões aeima.
Um menino de onze anos era assíduo devorador das revistas “Gibi” e “Guri”. Tanto se impregnou daquelas aventuras criminosas que, de gênio bom e delicado, tornou-se autônomo, brigalhão, insuportável. Falecido o pae, insubordinou-se mais e mais contra a mãe. Um dia, afinal, ela o intimou a permanecer em casa para ajuda-la. O valentão, num repente, aventurou praticar uma cena degradante, análoga às lidas nas ditas revistas. Lançou mão do machado e investiu contra a mãe afim de massacrá-la. Isso com onze anos de idade. A cena é verídica e dela pode dar testemunho quem redigiu o presente artigo.
[…]
Apélamos aos paes, aos frofessorado e aos vendedores nos postos e livrarias para que ponham termo à existencia maléfica de tão grave e urgene problema.
Akinola Lasekan (1921-1972) nasceu na Nigéria. Foi um artista versátil, foi pintor, ilustrador, designer gráfico e cartunista.
Fez charge para o jornal West African Pilot. Este jornal tinha uma linha editorial nacionalista que combatia o colonialismo da Inglaterra, buscando a independência da Nigéria. O jornal foi lançado em 1937 por Nnamdi Azikwe. Em 1944 começa a publicar o trabalho de Akinola, em um série diária que duraria até 1960.
1ª edição: 12 de abril de 1939 . Editora O Globo. Formato tabloide com 32 páginas. Custava 300 réis. Primeira série da revista foi até o número 1739, em 31 de maio de 1950.
.Anúncio do lançamento de Gibi no Jornal O Globo, de 12 de abril de 1939
Adolfo Aizen, jornalista que prestava serviços para Roberto Marinho, visitou os EUA onde conheceu o grande potencial de venda dos suplementos. Aizen voltou com a ideia de implementar essas cadernos no jornal O Globo. Marinho não aprovou por achar que era um investimento de alto risco.
Aizen busca parceiros e encontra a oportunidade de publicar no jornal A Nação. Entre os suplementos, o que mais fez sucesso era o Suplemento Infantil. Logo depois fundaria sua própria editora, Grande Consórcio Suplementos Nacionais, onde passaria a publicar o Suplemento Juvenil.
Vendo o sucesso de vendas de seu antigo colaborador, Roberto Marinho muda de ideia e inicia uma linha de revistas para disputar mercado com Aizen. Para concorrer com o Suplemento Juvenil, lançou O Globo Juvenil. Com o sucesso da primeira revista, em 1939 chega as bancas a revista Gibi.
Gibi era terno que na época significava menino, moleque, menino negro. Muitos desses garotos vendiam jornais nas ruas das grandes cidades. Foi esse pequeno vendedor de jornais negro que inspirou o nome e o personagem apareceu nas capas, ao lado da logo, em diversas edições.
Gibi tinha como conteúdo As Aventuras do Detetive Charlie Chan, Ferdinando, Brucutu, Tarzan, Flash Gordon, Príncipe Valente, Dick Tracy, Spirit, entre outros títulos distribuídos pelo sindicatos norte-americanos detentores dos direitos autorais.
As Aventuras de Chalie Chan, de Earl Derr Biggers, era o destaque do número 1 de Gibi.
Capa da primeira edição de Gibi, de 12 de abril de 1939
O sucesso de vendas e o preço baixo fez com que a revista tivesse três edições por dia e ganhasse uma revista variante, chamada Gibi Mensal.
Em 1952, o Grupo Globo fundou a Rio Gráfica e Editora (RGE), para dar conta do aumento das tiragens das revistas especializadas em quadrinhos. O sucesso durou mais alguns anos, porém o mercado foi se modificando, e os leitores passaram a gostar mais de revistas com uma linha editorial com seus personagens preferidos protagonizando com revistas próprias do que revistas com coletâneas de várias histórias com diferentes personagens e gêneros. Desta maneira, as revistas de coletâneas, que era a característica da Gibi, acabaram sendo descontinuadas. O Novo Gibi, deixou de circular em dezembro de 1954. A Gibi Mensal seguiu até o número 249, em 1961.
Uma tentativa de relançamento aconteceu em 1974 como o Gibi Semanal, que durou 40 números. A segunda, em 1975, lançou o Gibi Especial e teve 8 números. O Almanaque do Gibi Nostalgia, terceira tentativa, durou 6 edições entre 1975 e 1977. Uma coletânea foi criada em 1980, em Gibi de Ouro – Os Clássicos dos Quadrinhos, com 6 edições.
Depois que a RGE se transformou em Editora Globo, 12 edições de Gibi foram lançadas entre 1993 e 1994, com personagens clássicos. Usou-se ainda os títulos Gibizinho entre 1991 e 2006 e o Gibizão da Turma da Mônica, entre 2001 e 2005.
A revista, principalmente em sua primeira fase, fez muito sucesso e deixou sua marca no mercado editorial das hqs. Ao mesmo tempo, uma série de ataques contra os quadrinhos, onde muitos defendiam que eram maléficos para a juventude, jornais rivais d’O Globo passaram a fazer matéria usando Gibi de forma genérica para falar mal sobre todas as revistas de fantasia e aventura e atingir indiretamente Roberto Marinho. Esse cenário permitiu que a marca mudasse o significado de gibi, transformando o termo em sinônimo de histórias em quadrinhos no Brasil.
1950 a 1952 – Novo Gibi – O Globo – n. 1740 ao 1797. (Mudança de nome, continuação da numeração).
1952 a 1954 – Novo Gibi – RGE – n. 1798 ao 1842. (O sucesso fez com que o jornal criasse uma editora própria para histórias em quadrinhos: a Rio Gráfica Editora – RGE.)
Gibi Mensal
1941 a 1952 – Gibi Mensal – O Globo – n. 1 ao 137.
1996 a 201 – Gibizão da turma da Mônica – Editora Globo – 9 edições.
1998 a 2003 – Almanaque do Gibizinho Mônica – Editora Globo – 65 edições.
Gibi também inspirou o nome dos espaços dedicados à preservação, organização, leitura, difusão e formação de público leitor de história em quadrinhos. Da junção de gibi + biblioteca , surgiram as gibitecas.
VERGUEIRO, Waldomiro. SANTOS, Roberto E. dos. A revista Gibi e a consolidação do mercado editorial de quadrinhos no Brasil. Matrizes. Vol. 8, n.2, 2014. São Paulo: Universidade de São Paulo, jul./dez de 2014. p. 175-190. Disponível em https://www.redalyc.org/pdf/1430/143032897010.pdf