Categoria: Linha do Tempo

1831 – Gargantua, de Honoré Daumier

Honoré Daumier (1808-1879) caricaturista e pintor francês. Um dos mestres da litografia, colaborou com a revista La Caricature.

Uma das suas caricaturas mais famosas foi a Gargantua, que criticava o Rei Luís Filipe I. Publicada em 16 de dezembro de 1831, o desenho mostrava o rei sentado em seu trono devorando sacos de moedas retirados do povo desamparado, com pouco dinheiro e com fome. Movendo logo abaixo do trono, os seus ministros, retratados todos gordos, coletando comissões e condecorações pelo resultado da coleta destes impostos.

Por causa da caricatura, o artista e o editor da revista sofreram censura e foram levados para a Corte. Julgados em fevereiro de 1832, a arte foi considerada obscena, rude e vulgar. Foram condenados a pagar uma multa e cumpriram pena de 6 meses de prisão. Após a libertação, a La Caricature deixou de circular.

Em 1835, o rei implementou um golpe de estado que instituiu a censura na França. O Jornal do Commercio, de 2 de outubro, fez uma tradução de uma notícia publicada no Morning Herald que denunciava a fim da liberdade de imprensa:

“O Governo de Luiz Philippe desfechou o seu golpe de estado, e veio por fim communicar formalmente ás Camaras os meios de que tenciona servir-se abafar a pequena somma de liberdade que ainda restava á França. […] De todos os objectos revolucionarios de 1830, todos concordavão que a manutenção da liberdade de imprensa era o primeiro e o mais importante. A nova carta não era mais que o contracto entre o rei cidadão e o povo, que resultava daquella revolução. O artigo setimo daquella carta declara que a censura nunca mais seria estabelecida, e o artigo 69 determinava que todos os delictos da imprensa serão d’ora avante jugados pelo jury.

O projecto de lei viola ambos estes princípios, […] e Fica abolida a liberdade de Imprensa. […]

Art. 1. Todos os que forem declarados criminosos de offensa contra a pessoa do Rei serão punidos com prisão e huma mulcta de 10,000 a 50,000 francos.

Art. 2. O que ridiculisar a pessoa o autoridade do Rei, terá de 6 mezes a 5 annos de prisão, mulcta de 500 a 10,000 francos, e perderá todos os direitos civis.

Art. 14. Nenhuma caricatura politica poderá ser publicada em Paris sem previa concessão do Ministro do Interior, e nas Provincias sem a do Prefeito: mulcta de 100 a 1,000 francos e prisão.”

POST-Scriptum. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, ano 9, n. 216, 2 out. 1835, p. 4. Disponível em: https://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=364568_02&pesq=caricatura&pasta=ano%20183&hf=memoria.bn.br&pagfis=6984

1822 – O Maribondo

Charge de um artista anônimo foi publicado no jornal O Maribondo, de Pernambuco em 25 de julho de 1822. O desenho aparece como uma logo, ilustrando todas as edições do jornal.

O desenho retrata a crise política instalada no Brasil Colônia. Um homem corcunda (português) foge ao ser atacado por marimbondos (os brasileiros). Todo o ambiente social conturbado da época culminaria com a proclamação da independência no dia 7 de setembro de 1822.

Essa charge foi encontrada pelo pesquisador Luciano Magno (Lucio Muruci), que lançou a obra História da Caricatura Brasileira.

Nessa edição, de 7 de setembro de 1922, o texto diz que os brasileiros são revoltos e dignos de castigo por quererem ser livres. Acaba-se de descobrir em Lisboa uma conspiração contra a Liberdade!

O Maribondo, Pernambuco, n. 1, 25 de julho de 1822. p. 1. Disponível em:
https://digital.bbm.usp.br/view/?45000033247&bbm/7065#page/2/mode/2up

1798 – Litografia

“A litografia representou […] para o mundo todo, mais um passo importante em direção à modernidade e ao aperfeiçoamento da comunicação visual. Inventada por Alois Senefelder no final do século XVIII, difundiu-se imediatamente pela Europa por volta de 1800. Em 1818 já estava no Brasil, antes mesmo de chegar a alguns países europeus.

Uma pedra, lápis graxo, água e tinta eram o bastante. Desenhar na pedra com um simples lápis, o crayon grass, espalhar a água-forte, que penetrava e corroía apenas a superfície não-graxa, passar a tinta, colocar a folha de papel sobre a pedra, passar o rolo sobre o papel, e a imagem surgia como que por encanto! Pouco dispêndio, fácil execução e multiplicação rápida permitiam passar desenhos e ilustrações para os jornais e publicá-los até diariamente. Todos os outros processos de gravar na madeira ou no metal, morosos e difíceis, forma superados pelas vantagens de reprodução litográfica. E surgiu uma nova categoria de desenhista, a do ‘repórter do lápis’, trazendo para o leitor fatos, pessoas e coisas distantes no tempo e no espaço. […]

A litografia democratizou a imagem, tornando-a popular. […] Todos passaram a ler imagens. Todas as semanas.” (Gama, p. 13)

GAMA, Luís. Diabo Coxo: São Paulo, 1864-1865. Ed. fac-similar. São Paulo, Editora USP, 2005. Disponível em: https://www.livrosabertos.edusp.usp.br/edusp/catalog/view/44/40/180-1

1789 – Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão é resultado direto da Revolução Francesa. Sinaliza o fim do regime absolutista na França, que dava o poder ilimitado ao rei sobre o Estado, passando para um regime onde representantes da população eram escolhidos para atender os interesses dos cidadãos.

A crise econômica e social fez com que atos revolucionário surgissem na França em 1789, levando a derrubada do Rei Luís XVI. Após a Revolução, formou-se uma Assembleia Nacional, que em 1789 aprovou a Declaração, que possuía um preâmbulo e 17 artigos. O documento define com universais os direitos dos homens, válidos a qualquer tempo e em qualquer lugar, de caráter imprescritíveis, trazendo para o debate os temas: liberdade, igualdade e fraternidade.

O francês Jean-Jacques-François Le Barbier (1738-1826), que era o pintor oficial do Rei da França desde 1780, ficou com a responsabilidade de ilustrar a Declaração.

A pintura mostra a figura da Monarquia segurando uma corrente quebrada, sinalizando o fim da tirania. No centro há o Olho da Providência – o olho que tudo vê – que é um globo ocular dentro de um triângulo iluminado da Santíssima Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ele é um símbolo cristão, presente em várias pinturas da Renascença, visto como sinal de aprovação dos atos da humanidade por Deus. Do lado direito há a figura feminina da Nação, em um corpo de anjo com asas. Ela segura em uma de suas mãos o Cetro do Poder apontado para o Olho da Providência. A outra mão da Nação aponta para o conteúdo, completando o simbolismo de aprovação divina da Declaração.

Essa pintura encontra-se no Museu de La Ville de Paris. Tem 78 x 64 cm. A imagem pode ser baixada em alta resolução: https://www.parismuseescollections.paris.fr/fr/musee-carnavalet/oeuvres/declaration-des-droits-de-l-homme-et-du-citoyen-4#infos-principales

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1873 – Leonardo und Blandine: ein Melodram nach Bürger

1ª edição: 1873, Romênia

O Romeno Joseph Franz Von Goz (1754/?) é o autor do livro Leonardo und Blandine: ein Melodram nach Bürger editado em 1783, publicação com 160 páginas em que os textos apareciam no rodapé das ilustrações.

http://konkykru.com/e.goez.1783.lenardo.und.blandine.1.html

James Gillary (1756-1815)

James Gillray , caricaturista britânico nascido em Londres.

Aprende a técnica de gravador e em 1778 ingressa na Royal Academy. Inicia sua série de trabalhos de sátiras pólitcas com a caricatura “Paddy on Horseback” de 1779.

Crédito imagem: National Portrait Gallery

Suas caricaturas já apresentavam o recurso de balões de fala:

“Gloria Mundi,, or The Devil addressing the Sun” de 1782

“Anti-Saccharites, or John Bull and his Family leaving off the use of Sugar” de 1782

“A Block for the Wigs or The New State Whirligig” de 1783

“John Bull taking a Luncheon” de 1798.

“The Friend of the People’ und his Petty New Tax Gatherer” de 1806

No trabalho de James Gillray encontra-se experimentações para contar histórias através da sequência de quadros.

“Vices Overlook’d in the New Proclamation” de 1792

Gravura com o tema Democracia, ou um esboço da vida de Napoleão Bonaparte.

“Democracy, or a Sketch of the Life of Buonaparte” de 1800

Créditos fotos: Meisterdrucke: https://www.meisterdrucke.pt/artista/James-Gillray.html

1732 – Modern Moral Subjects

1ª edição: 1732, Inglaterra

O artista britânico William Hogarth (1697-1764) que a partir de 1732 lançou a série “Modern Moral Subjects” (Assuntos Morais Modernos). Através de uma narrativa usando uma sequência de gravuras, Hogarth satirizava os vícios e os costumes de sua época.

Abaixo “Beer Street/Gin Lane” sobre o vício da bebida alcoólica Gin nas ruas de Londres.

Annibale Carracci (1560-1690)

O italiano Annibale Carracci nasceu em 3 de novembro de 1560 em Bolonha. Em parceria com seu irmão e um primo, abriu em 1582 o estúdio de pintura Accademia dei Desiderosi, posteriormente chamada de Accademia degli Incamminati. O estúdio produziu vários afrescos famosos, como os do Palazzo Farnese em Roma, onde Annibale produziu os esboços e coordenou a equipe de pintura do grande salão.

Entre suas obras, Carracci produziu diversos estudos de tipos populares que viviam na Bolonha.

Carracci conceituou:

“A tarefa do caricaturista não é a mesma do artista clássico? Os dois vêem a verdade final por baixo da superfície da mera aparência exterior. Os dois tentam ajudar a natureza a realizar seu plano. Um pode lutar para visualizar a forma perfeita e executá-la em sua obra, o outro luta para alcançar a deformidade perfeita, e assim revelar a essência de uma personalidade. Uma boa caricatura, como toda obra de arte, é mais verdadeira à vida que a própria realidade. (ROSA, 2014, p.13-14)

Mais tarde, Carracci passou a adotar nas aulas de sua Academia exercícios de desenhos rápidos para seus alunos, usando os traços exagerados como forma de relaxamento e para que seus aprendizes pudessem capturar a essência do retratado.

Caricaturas de1595

Após a sua morte, foi editada uma coleção de gravuras onde se encontra escrita a palavra caricatura, que deriva do verbo italiano caricare, que significa carregar, sobrecarregar, carregar exageradamente.

Referência

ROSA, Pollyana Ferreira. A comédia satânica de Honoré Daumier: a caricatura política na aurora da comunicação de massas. São Paulo: Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, 2014.
https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27160/tde-22092015-111638/publico/PollyanaFerreiraRosa.pdf

Wikiart.org: Disponível em: https://www.wikiart.org/pt/annibale-carracci

1530 – Códice Boturini ou Tira de la Peregrinación

Estima-se que foi produzido entre 1530 e 1541. O autor desconhecido. México.

O Códice Boturini é uma tira de papel amate (feita a partir de fibras de plantas) produzida em 22 lâminas de 19.8 x 25.5 cm e 5,49 metros de comprimento.

Seus desenhos narram a história da migração dos astecas – por isso é também conhecida como Tira de la Peregrinación- desde sua saída de Aztlan até a chegada ao Vale do México, na cidade de Tenochtitlan. Estudiosos estimam que esse movimento migratório começou por volta do ano de 1116.

Aztlan era uma terra ancestral asteca de localização imprecisa. Era rodeada de água e próximo a uma ilha onde havia um templo dedicado à água e ao fogo. Quando uma mulher chamada Chimalma atravessa o rio em sua canoa em direção a ilha para levar oferendas, encontra o deus Huitzilopochtli. O deus lhe envia uma mensagem para que os astecas deixem sua antiga terra e partam em uma jornada para formar uma nova cidade. Durante a jornada, passam por 7 diferentes povoados, que se juntam no movimento migratório. Se dividiram em quatro grupos, onde cada um carregava um dos deuses que veneravam.

Caminharam até chegar a um lugar onde havia uma árvore enorme. Começaram a se organizar porém a árvore se partiu ao meio e perceberam que não era ali que deveriam ficar. Um pouco tristes, retomaram a caminhada. Se depararam com grandes dificuldades que lhe obrigaram a fazer sacrifícios. Nesse momento, o deus Huitzilopochtli envia outra mensagem dizendo que eles não mais se chamariam astecas, agora seriam mexicas.

Chegaram a um lugar onde havia dois montes onde permaneceram por 26 anos. Depois o Códice registra vários descolamentos e fixação temporárias, sempre registrando o tempo de permanência, o número de pessoas relacionado a cada grupo de origem e as cerimônias realizadas em cada morada fixada.

Na caminhada, após uma batalha em que foram derrotado, os mexicas são capturados e levados como prisioneiros. Passaram um bom tempo preso até que esse povoado entrasse novamente em batalha. O rei fez uma proposta para que os prisioneiros guerreassem a seu lado para derrotar o seu inimigo.

Os mexicas deveriam trazer uma orelha de cada inimigo morto, depositadas em um saco, como prova de seus feitos. Eles aceitaram a proposta. Pensaram que poderiam ser acusados de cortar as duas orelhas para aumentar o número de morte, por isso decidiram cortar os narizes dos inimigos mortos. Com armas improvisadas, saíram para a batalha.

Abaixo um vídeo que narra a história detalhada contida no Códice Boturini:

Veja imagens do Códice Boturini em Instituto Nacional de Antropologia e História do México: https://mediateca.inah.gob.mx/repositorio/islandora/object/codice%3A605

1450 – Prensa móvel de Gutenberg

Métodos de impressão já existiam em diversas partes do mundo, como na China e na Coréia. Foi na China, inclusive, que se inventou a técnica de produção de papel que permitiu a produção em escala das prensas. Porém a invenção de Johannes Gutenberg (1400-1468) revolucionou o mundo ao criar uma máquina de tipos móveis onde era possível imprimir diversas cópias em papel de forma mais rápida do que todas as outras técnicas existentes na época.

A primeira obra impressa por Gutenberg foi a Bíblia Sagrada. No início do projeto outras possibilidades foram pensadas considerando a questão da comercialização. Mas uma demanda da Igreja, que tinha o interesse de padronizar missas, livros de contos e breviários mostrou um mercado promissor. Havia a intenção da organização religiosa de que as bibliotecas nos mosteiros possuíssem uma Bíblia, bem traduzida e editada.

“Um escriba dificilmente copiaria com qualidade mais do que duas densas páginas de alta qualidade por semana (um comentário da Bíblia de mil duzentas e setenta e duas páginas exigiria cinco anos de dois escribas, de 1453 a 1458)” (Man, 2004, p. 100).

Gutenberg tem um encontro com o cardeal alemão Nicolau e mesmo sem um comprometimento oficial, sai da reunião com a impressão de aprovação da ideia. De qualquer maneira, a Igreja exigiria um manejo cuidadoso da Bíblia e um novo formato poderia criar rejeição. A versão tipográfica deveria ter a exatidão dos textos e alcançar uma estética que superasse os manuscritos. Era um empreendimento caro e de alto risco.

O projeto da prensa começa em 1438 com mais três sócios/investidores do empreendimento: Hans Riffe, Andreas Dritzehn e Andreas Heilmann. Foi alugado um local em Mainz para a montagem da oficina. A ideia era desenvolvida em total segredo, tanto que a morte de um dos sócios, Dritzehn, ameaçou os plano quando os familiares tentaram – via ação judicial – ter acesso ao que se estava sendo desenvolvido. A corte decidiu, em 1439, que Gutenberg pagasse pequena soma de indenização mas o segredo foi mantido.

A produção da Bíblia começou em 1450. Foi necessário vários testes em relação ao melhor papel, tipo de tinta e composição de páginas, que compreendia encontrar melhor tamanho das letras, espaçamento e entrelinhas. Tendo encontrado o melhor formado, “Com mais de seis compositores manejando três prensas, trabalhando todo o tempo, menos durante os festivais religiosos, Gutenberg e seu pessoal podem ter produzido a Bíblia de 42 linhas – cento e oitenta cópias, duzentos e trinta mil páginas, cada uma exigindo sua própria impressão – em aproximadamente dois anos, dois furiosos anos de trabalho nos quais eles também se dedicaram a outros trabalhos. No outono de 1454, o livro estava pronto.” (Man, 2004, p. 183).

Gutenberg em sua oficina, observando uma prova da Bíblia.

A Bíblia possuída 1.282 páginas em dois volumes. Diagramada em duas colunas com 42 linhas. Estima-se que forma produzidos entre 150 e 180 exemplares, sendo publicados em papel e, em menor quantidade, exemplares feitos em pergaminho. As iluminuras foram feitas à mão.

Procedimento revolucionário, mas que custou muito dinheiro e dívidas, fez com que Gutenberg fosse processado. A execução de uma hipoteca fez com que ele perdesse a oficina.

A prensa móvel se tornou um método de sucesso e permitiu a popularização das gráficas e formação do mercado editorial, sendo um dos marcos da transição da Idade Média para a Idade Moderno na Europa, época da expansão mercantilista. Os novos mercados fizeram com que a disseminação da informação se espalhassem pelas rotas comerciais. Embora ainda caros, os livros não eram mais de acesso restrito da Igreja e da nobreza.

Com o crescimento do comércio, surgem os burgueses. Essa classe em ascensão financeira passa a questionar o poder absoluto dos reis. Surgem as ideias liberais, como o de propriedade privada, de limitação do poder do Estado e de liberdade de expressão para poder criticar – se serem punidos – os governantes e suas políticas.

Da junção da disseminação das prensas e das reivindicações do direito de liberdade de expressão, surgem os primeiros panfletos que passam a circular com críticas sociais e políticas. Era o embrião do jornalismo, que publicava notícias, críticas e opiniões através de jornais e revistas. Entre os conteúdos, a caricatura política se popularizou.

Dica de leitura:

MAN, John. A Revolução de Gutenberg: a história de um gênio e da invenção que mudaram o mundo. Rio de Janeiro: Editouro, 2004.