Categoria: Repositório

A Gibiteca Stan Lee: uma articulação entre quadrinhos, leitura e temas transversais

Autores:
Alex Caldas Simões
Jehíza Kiister Clementino
João Vitor do Vale da Rocha
Kedson de Oliveira Bertazo

Resumo

Uma Gibiteca é um espaço de socialização de leituras de quadrinhos, bem como de organização, seleção e aquisição de publicações em quadrinhos (Nogueira, 2015). É um estímulo à leitura multimodal, à crítica e à reflexão à indústria cultural. Relatamos aqui a experiência de implementação da Gibiteca itinerante Stan Lee, na cidade de Venda Nova do Imigrante (ES). O projeto articulou os quadrinhos aos temas transversais propostos pelos PCN, às datas comemorativas do ano letivo escolar e às temáticas escolares relevantes. Aqui a história em quadrinhos é um objeto interdisciplinar (Japiassú, 1976) e integrador das disciplinas. Como resultados parciais do projeto temos: (a) a constituição de um acervo representativo de revistas em quadrinhos, cujo critério foi abordar os temas transversais; e (b) a realização de oficinas de leitura sobre o mês da mulher, tendo como base a alfabetização dos quadrinhos (Vergueiro, 2009a), na qual a sua linguagem (Ramos, 2009) foi apresentada. Tivemos como objeto de estudo as histórias em quadrinhos Mulher-Maravilha: deuses e mortais (Wein, Pérez, 2016) e Mafalda: feminino singular (Quino, 2020). A proposta se desenvolveu na biblioteca da escola parceira e revelou ser um instrumento relevante para discussão dos temas transversais e do currículo oculto. A leitura da história em quadrinhos mobilizou conhecimentos de leitura, sociedade e texto.

Trechos

“[…] uma gibiteca, a fim de promover os quadrinhos, tem como objetivo o estímulo e o incentivo à leitura de narrativas quadrinizadas. […] “Numa definição bem simples, gibitecas são espaços destinados ao armazenamento e leitura de HQs.” (Nogueira, 2015, p. 90). […] O termo “Gibiteca” faz menção à palavra “Gibi”, sinônimo de histórias em quadrinhos –e “nome de uma famosa e popular revista das organizações O Globo, publicada de 1939 a 1950.” (Vergueiro, 2003, p. 2). Uma gibiteca, portanto, é um estímulo à formação de leitores e à leitura crítica de histórias em quadrinhos, uma reflexão à indústria cultural. Acima de tudo é um lugar de integração e reunião de toda comunidade escolar (Nogueira, 2007) e um incentivo à leitura (Baía; Condurú, 2022)” (Simões; Clementino; Rocha; Bertazo, 2024, p. 4).

“Desde os PCN (1998) as histórias em quadrinhos estão na escola, sendo reconhecidas como legítimos objetos para o trabalho com a leitura, a escrita e a análise linguística. É um claro objeto interdisciplinar porque, por meio de um projeto comum com as histórias em quadrinhos, desenvolve-se uma forte relação e diálogo –combinação –entre as disciplinas escolares (Japiassú, 1976)” (Simões; Clementino; Rocha; Bertazo, 2024, p. 5).

“Nesse sentido, todas as disciplinas –cada uma em sua área de formação, a partir de pelo menos duas disciplinas –podem utilizar as histórias em quadrinhos em um projeto escolar integrador. […] ” (Simões; Clementino; Rocha; Bertazo 2024, p. 5).

“Como se vê, a interdisciplinaridade é uma exigência da pós-modernidade (Oliveira, 2009) e com ela surge a possibilidade de reflexão crítica sobre muitos problemas atuais” (Simões; Clementino; Rocha; Bertazo, 2024, p. 6).

SIMÕES, Alex Caldas; CLEMENTINO, Jehíza Kiister; ROCHA, João Vitor do Vale da; BERTAZO, Kedson de Oliveira. A Gibiteca Stan Lee: Uma articulação entre quadrinhos, leitura e temas transversais. 9ª Arte (São Paulo)[S. l.], p. e218673, 2024. DOI: 10.11606/2316-9877.Dossie.2023.e218673. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/nonaarte/article/view/218673.

Do gibi à gibiteca

Do gibi à gibiteca: origem e gênese de significados historicamente situados
Autor: Richardson Santos de Freitas

Orientadora: Lorena Tavares de Paula

Monografia apresentada em 14 de novembro de 2023 à Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), como atividade optativa do curso de graduação em Biblioteconomia.

Banca:
Waldomiro de Castro Santos Vergueiro
Lígia Maria Moreira Dumont
Terezinha de Fátima Carvalho de Souza

RESUMO
Esta pesquisa faz um estudo sobre a palavra gibi, através do método histórico, investigando as mudanças de seu significado e sua assimilação sociocultural. Considera-se que esse gênero artístico e fonte de informação para desenvolvimento de coleções especiais prescinde de estudos críticos sobre abordagens teóricas, lexicais e historiográficas para melhor compreensão desses materiais para o desenvolvimento de coleções. Nesta investigação, os primeiros registros foram encontrados em jornais de 1888, pesquisados na Hemeroteca Virtual da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil. Constatou-se que inicialmente gibi era um apelido atribuído a pessoas negras. Posteriormente, transformou-se em uma gíria racista direcionada aos meninos negros, possuindo o sentido pejorativo de feio e grotesco, publicados em anúncios e em páginas de quadrinhos de periódicos. Depois a palavra passou a ser usada para designar os meninos negros que vendiam jornais nas ruas. Desses pequenos vendedores surgiu a inspiração para o título da revista Gibi, lançada em 1939 pela editora O Globo. O sucesso de vendas da revista, a ampla publicidade, o investimento em relações públicas e o cenário de críticas aos quadrinhos vindas principalmente de adversários da editora transformaram a palavra gibi em sinônimo de revista de histórias em quadrinhos no Brasil, fazendo o sentido original cair em desuso. A popularização do termo inspirou as bibliotecas brasileiras a adotarem a denominação de gibiteca para seus acervos de quadrinhos.

ORIGEM E GÊNESE DA PALAVRA GIBI (GIBY)

A pesquisa começou pela busca do significado da palavra gibi nos dicionários disponíveis nos acervos das bibliotecas da Faculdade de Ciência da Informação, da Faculdade de Letras e da Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Minas Gerais. Ao todo foram encontradas 23 edições, de diferentes editoras, publicadas entre 1940 a 2011. 

O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa de 2010 é o exemplar com o maior detalhamento do significado da palavra gibi. O termo é definido como um substantivo masculino e um brasileirismo, isto é, próprio do português do Brasil. A palavra é sinônimo de revista em quadrinhos, mas o dicionário também informa que é uma gíria em desuso atribuída a menino negro:

gibi. S. m. Bras. 1. Gír. Desus. Meninote preto; negrinho. 2. Nome registrado de determinada revista em quadrinhos, infatojuvenil. 3. P. ext. Qualquer revista em quadrinhos. 4. Publicação interna […] (Ferreira, 2010, p. 1030, grifo nosso).

São raros os vestígios do uso de gírias até o fim do século XIX. “[…] com o crescimento das cidades brasileiras, em particular da capital, o Rio de Janeiro, observamos que a gíria começa a fazer parte da linguagem dos grupos sociais […]” (Preti, 2001, p. 60). Esse uso coincide com o aumento da circulação de jornais que passam a exercer influência social e política nos centros urbanos. 

A gíria é um fenômeno sociolinguístico que constituiu um vocábulo tipicamente oral. Ela é um código que pode pertencer a um grupo social restrito ou transformar-se em um fenômeno que extrapola essa comunidade, tornando-se popular. Segundo Preti (2001, p. 68) os especialistas possuem dificuldade em encontrar a evolução e as transformações de sentido referente à língua oral porque a documentação escrita existente é precária e ocasional. 

O desconhecimento da origem da gíria gibi é citado em dois dicionários, que usam o termo “origem obscura”. No Novíssimo Aulete: Dicionário contemporâneo da Língua Portuguesa define gibi como “[…] 2. Gír. Menino negro; Negrinho [F.: De or. Obsc.]” (Aulete, 2011, p. 711, grifo nosso). O Dicionário Houaiss confirma que a palavra informal brasileira tem origem etimológica desconhecida, registrando “gibi s.m. B. Infrm. 1 garoto negro; negrinho. […] ETIM orig. obsc.” (Houaiss; Villar, 2007, p. 1449, grifo nosso). 

No Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa há uma segunda definição, que diz que gibi vem do latim gibbus possuindo o significado de giba, ou seja, uma pessoa corcunda ou com o corpo disforme.

gibi. [Do lat. gibbus, í.] El. comp. = ‘giba’, ‘corcunda’; gibífero, bibifloro.   (Ferreira, 2010, p. 1030).

giba. [Do lat. gibba.] S. f. 1. V. corcunda (1): “Seu corpo disforme, cheio de gibas de gordura, dava-lhe aspecto de grande besouro castanho e zumbidor, “ (Cornélio Pena, A Menina Morta, p. 20) […] (Ferreira, 2010, p. 1030).

O exemplo do uso da palavra, que aparece na edição do dicionário Aurélio, trata-se de trecho da obra de Cornélio Penna intitulada “A Menina Morta”. Ambientada no tempo da escravidão, o livro conta a história da morte da filha de um senhor de pessoas escravizadas e os preparativos para o enterro. Um dos personagens, o senhor Justino, é um homem adulto que possui o cargo de administrador da fazenda. Justino foi encarregado de levar um pedido dos escravizados ao seu senhor. Eles desejariam acompanhar o cortejo fúnebre da menina. Justino é descrito como um negro “cheio de gibas de gordura” por ser tão gordo que aparentava ser disforme. 

No Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, organizado por Laudelino Freire, publicado em volumes entre 1940 a 1943, traz a descrição de que gibi é a “Forma inexata de jibí” (Freire, [194?], v. 3, p. 2725). Jibí é “s.m., Gír. 1 Negrinho, moleque. || 2. Tipo feio, hediondo, grutesco.” (Freire, [194?], v. 4, p. 3073, grifo nosso). Nenhum outro dicionário possui essa alternativa de grafia e não se encontrou nenhum registro de jibí em jornais ou revistas na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Ainda na década de 1940, o dicionário Lello define “Gibi, s. m. Pop. Negro, Typo feio e grotesco” (Lello, [194?], p. 1157, grifo nosso). A definição do Dicionário Brasileiro Contemporâneo Ilustrado, elaborado por Francisco Fernandes, que traz “gibi. s.m. (bras.) (pop.) Moleque; negrinho; indivíduo feio, grotesco” (Fernandes, 1965, p. 558, grifo nosso). Essas definições indicam que o uso da palavra era empregado para definir criança negra e estava vinculada a um segundo sentido pejorativo de pessoa feia, grotesca e hedionda.

Sabendo da dificuldade para se encontrar a origem da gíria gibi, optou-se por mapear o momento em que o seu uso tornou-se popular, incorporado aos textos jornalísticos. O trabalho pesquisou a palavra em jornais e revistas que circulavam no Brasil antes de 1939, data de lançamento da revista Gibi. O objetivo era encontrar a palavra sendo usada no seu sentido mais antigo. Durante esta busca, percebeu-se que gibi poderia assumir a forma variante giby, que foi incorporada nas buscas.

Alcunha Giby/Gibi

A mais antiga menção de gibi encontrada na hemeroteca virtual da Biblioteca Nacional tem a grafia de giby. A palavra está em uma nota na seção de notícias policiais da Gazeta da Tarde da edição que circulou na cidade do Rio de Janeiro em junho de 1888. O ano é marcado pela Lei Áurea, assinado em 13 de maio, no processo gradual do fim da escravidão no país. Sem nenhum tipo de compensação ou integração social, os recém-libertados se viram na situação de continuar trabalhando nas fazendas como assalariados ou seguir para os grandes centros urbanos em busca de alguma ocupação. Porém, esses centros urbanos não foram capazes de absorver o novo contingente de mão de obra, aumentando o número de pessoas desocupadas que vagavam pelas cidades em busca de sobrevivência. 

O crime de vadiagem já era usado para o controle social desde a promulgação do Código Criminal do Imperio do Brazil em 16 de dezembro de 1830. O mecanismo ganhou regulamentação através do Código do Processo Criminal de 1832, que em seu artigo 12 detalhou as competências e procedimentos dos Juízes de Paz diante de vadios, mendigos ou qualquer outra pessoas que perturbasse o sossego público:

§ 1º Tomar conhecimento das pessoas, que de novo vierem habitar no seu Districto, sendo desconhecidas, ou suspeitas; e conceder passaporte ás pessoas que lh’o requererem.

§ 2º Obrigar a assignar termo de bem viver aos vadios, mendigos, bebados por habito, prostitutas, que perturbam o socego publico, aos turbulentos, que por palavras, ou acções offendem os bons costumes, a tranquillidade publica, e a paz das familias. (Brasil, 1932).

As pessoas fora do mercado de trabalho eram consideradas perigosas pela elite imperial e, por isso, o termo de bem viver foi o instrumento jurídico criado para vigiar, punir e segregar os indivíduos pobres livres, estigmatizados como vadios ou vagabundos. Eduardo Martins esclarece que: 

No contexto de uma sociedade escravista, em que o controle dos senhores no máximo abrangia escravos agregados, a criminalização da vadiagem se constituiu em poderoso recurso de controle extra-econômico utilizado pelas autoridades para constranger os pobres livres ao trabalho. (Martins, 2003, p. 64-65).

Na seção “Pela Polícia” da Gazeta da Tarde em 4 de julho de 1888 (Figura 1), está noticiado que “Assignou termo de bem viver, como vagabundo, na subdelegacia da freguezia da Lagoa, Joaquim dos Santos, vulgo Giby.” (Pela polícia, 1888, p. 3). A mesma notícia foi publicada no dia seguinte, nas seções dedicadas as notícias policiais do Diario de Noticias e Jornal do Commercio, ambos da cidade do Rio de Janeiro. O Jornal do Commercio acrescentou ao fato a informação de que Joaquim dos Santos recebeu a punição de três meses de prisão e foi encaminhado para a casa de correção.

Figura 1 – Vulgo Giby assina termo como vagabundo.   Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, n. 125, 4 de junho de 1888. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional
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Gibiteca: Unidade de Informação para a mediação da leitura de histórias em quadrinhos

Autor: Rubem Borges Teixeira Ramos

RESUMO: Considerando-se as histórias em quadrinhos como recursos / dispositivos informacionais, e as gibitecas enquanto unidades de informação, que contam em seu acervo com diversas coleções de quadrinhos, o presente estudo tem por objetivo identificar a existência de ações ou eventos promovidos pelas gibitecas voltados a mediação da leitura, tendo por base as dimensões da mediação da informação, conforme aponta Gomes (2014, 2017, 2019, 2020). Para tanto, procedeu-se a um estudo de caso, de natureza qualitativa e descritiva, realizado junto a um conjunto de gibitecas brasileiras, elencando algumas de suas atividades e projetos, procurando evidenciá-las também como ações pertinentes a mediação da leitura. Ao analisar essas atividades e projetos, a pesquisa constatou que as gibitecas oferecem ações que
se enquadram junto as dimensões da mediação da informação, o que favorece o senso de envolvimento e a prática da leitura de histórias em quadrinhos, contribuindo tanto junto a atuação de mediadores da leitura, como profissionais conscientes para com seu dever e funções em relação a escolha e a abordagem que devem considerar junto aos quadrinhos, como quanto aos leitores alvo da mediação da leitura, com vistas a favorecer a sua formação enquanto leitores de diferentes contextos e realidades sociais, estimulando a apropriação de informação e a serem conscientes e ativos com seu papel de protagonismo social.

Citações

“Uma vez estabelecendo a presença de informação junto a narrativa das HQs, e considerando os diferentes gêneros presentes nesses quadrinhos – terror, infantis, biografias, super-heróis, entre outros – bem como a quantidade expressiva de publicações disponíveis atualmente no mercado nacional e internacional, é interessante se pensar em formas pelas quais seja possível fornecer o acesso as HQs, tanto das que foram produzidas em décadas anteriores quanto as atuais, estimando aqueles que necessitam obter e acessar a informação contida em suas narrativas. Para isso, deve-se contar com um local que atue como disseminador, para que outros possam também receber informações presentes nesses recursos informacionais, promovendo seu acesso e uso por parte dos leitores” (Ramos, 2023, p. 7-8).

“A existência de Gibitecas enquanto UI possibilita não apenas um local cuja função seja a de organizar, catalogar e disseminar as HQs, nem tampouco o de fornecer exclusivamente como fruto dessas importantes ações o acesso desses quadrinhos ao público leitor interessado em lê-los. Segundo Pustz (2000), a existência de locais que estimulem em base regular encontros e debates que sejam interessantes, contribuindo assim para com a formação de leitores engajados e de uma cultura devotada as HQs é algo que se deve endossar” (Ramos, 2023, p. 8).

“Podemos estabelecer, como função social da gibiteca, a inclusão e o estímulo a leitura, criatividade e criticidade e, no caso da gibiteca escolar, acrescente-se aí a inclusão pela educação. Assim, a gibiteca não pode ser considerada tão somente uma coleção de histórias em quadrinhos disposta a consulta pública (p. 101)” (Ramos, 2023, p. 9).

(Ramos, 2023, p. )

RAMOS, Rubem Borges Teixeira. Gibiteca: unidade de informação para a mediação da leitura de histórias em quadrinhos. Liinc em revista, v. 19, n. 1, maio 2023. Disponível em: https://revista.ibict.br/liinc/article/view/6312.

A primeira gibiteca pública sergipana: Manual de catalogação de acervos de histórias em quadrinhos

Autora: Ida Conceição Andrade de Melo

Resumo

Como catalogar acervos de HQ, considerando as especificidades desta fonte, para viabilizar a Organização do Conhecimento e da Informação em Gibitecas? Seu objetivo geral foi o de elaborar um produto editorial que visa propor um método de representação descritiva, temática e de indexação (catalogação) para o acervo de HQ da gibiteca projetada, com aprofundamento analítico e adaptação dos instrumentos já aplicados aos outros setores da Biblioteca; aplicar os princípios do Guia Prático de Classificação Indicativa do Governo Federal às obras, para gerar informação que facilite a mediação de leitura, com respeito às faixas etárias e sugerir recursos informacionais, ou seja, produtos e serviços especializados para leitores de HQ e voltado para o fomento à cultura leitora e a leitura pública.

Citações

“A Gibiteca é um acervo especializado em Histórias em Quadrinhos (HQ), que pode funcionar como um setor da departamentalização de uma unidade de informação, ou mesmo se constituir numa unidade de informação independente e autônoma. Caracteriza-se por reunir coleções de publicações voltadas para HQ, no todo ou em parte, assim como na organização de séries de quadrinhos destacadas do veículo de publicação original, em formato de Hemeroteca. As Gibitecas também se dedicam a colecionar as Narrativas Sequenciais Gráficas anteriores, que trazem as características primordiais desse gênero literário, assim como sua linguagem híbrida de texto e imagem e publicação em suportes típicos” (Melo, 2022, p. 14).

“O tema dessa pesquisa é a Gibiteca, unidade de informação característica da custódia ou acesso às produções e coleções de HQ e, pregressamente, de Narrativas Sequenciais Gráficas em geral. É uma unidade de informação cuja gestão exige do profissional um alto nível de especialização e apropriação de diferentes mídias, suportes e linguagens puras e híbridas; assim como um nível de letramento, leitura e erudição que o posicionem como interlocutor de diferentes comunidades leitoras” (Melo, 2022, p. 15).

“O Bibliotecário e a equipe multidisciplinar envolvida na implantação da gibiteca terão de buscar a identificação de necessidades informacionais latentes, usuários potenciais, transformações inerentes às Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e no regime de informação. Em todos os ambientes da sociedade nos quais circulem crianças e adolescentes, também existe a preocupação legal na disponibilização de informações segundo os princípios de respeito à faixa etária, prática gestora que tem se constituído em um desafio recorrente às Gibitecas” (Melo, 2022, p. 15-16).

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Panorama dos quadrinhos nigerianos

Autor: Matheus Calci Ferreira Gomes
2020, PIBIC – UNB

Apresentação

“[…] Pesquisando sobre a publicação de quadrinhos em diversos países, percebi a dificuldade para encontrar dados sobre a publicação de quadrinhos no continente africano, onde era difícil, inclusive, encontrar essas publicações e até mesmo se deparar com estudos sobre eles. Parecia até que existia um “buraco”, causando assim, uma impressão de que nada fosse produzido.

[…]

Esta pesquisa interroga, então, as origens das produções em quadrinhos na Nigéria, que é considerada uma grande produtora cultural, com grandes nomes da literatura, músicos reconhecidos e aclamados mundialmente e uma produção cinematográfica robusta. Como ficam, então, as publicações de quadrinhos? Pode parecer esperado que quase todos os resultados de quadrinhos nigerianos serem de super-heróis, até porque a influência desse tipo de material é global.

[…]

Em 1859, surge o que pode ser considerado o pontapé inicial dos quadrinhos modernos nigerianos. A criação do jornal totalmente em iorubá: Iwe Irohin. Apesar de o primeiro jornal em iorubá ter sido publicado em 1859, antes disso já havia outras revistas e jornais, exclusivamente em língua inglesa, em circulação no país, tais como a Punch que continha caricaturas políticas bem-humoradas relacionadas a sociedade britânica e que eram enviados e lidos pelos ingleses no país durante a colonização inglesa.

[…]

No ano de 1937, é publicada a primeira edição do jornal West African Pilot focado na luta nigeriana da independência contra os ingleses. Foi fundado pelo nacionalista Nnamdi Azikwe (1904-1996). O jornal de Azikwe é conhecido por ter sido um jornal nigeriano moderno que continha reportagens, cartas de protesto, anúncios e charges que se tornaram bastante populares no jornal. “

O autor utiliza no artigo a definição de Couperie (1973) para exemplificar e definir o que considera como quadrinhos ou não.

As histórias em quadrinhos seriam uma narrativa (mas não obrigatoriamente uma narrativa…) constituída pelas imagens criadas pelas mãos de um ou mais artistas (a fim de eliminar o cinema e a fotonovela), imagens fixas (diferentes dos desenhos animados), múltiplas (ao contrário dos cartuns) e justapostas (diferentes da ilustração e dos romances em gravura). Mas essa definição se aplica muito bem à Coluna de Trajano e à Tapeçaria de Bayeux… (Couperie, 1973).

GOMES, Matheus Calci Ferreira. Panorama dos quadrinhos nigerianos. Programa de Iniciação Científica. Universidade de Brasília, Brasília, 2020. Disponível em: Link para download: https://www.academia.edu/83835220/Panorama_dos_quadrinhos_nigerianos_PIBIC_UnB_2020_

Histórias em quadrinhos como coleção especial: uma experiência na biblioteca universitária

Autores:
Milena Polsinelli Rubi
Maria de Fátima Rossi da Costa
Elza Naomi Kawaguchi

Resumo: As revistas de histórias em quadrinhos fazem parte dos acervos das bibliotecas, porém, geralmente não são catalogadas e classificadas devido à fragilidade e à perecibilidade do seu suporte. Nesse sentido, nosso objetivo é apresentar o relato de experiência da Biblioteca Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos que, ao receber uma coleção com mais de 5.000 exemplares de um único doador, catalogou, classificou e indexou todos esses itens. As revistas de histórias em quadrinhos passaram por higienização mecânica, foram separadas de acordo com as coleções, catalogadas, classificadas, indexadas no catálogo Pergamum e armazenadas em papel de PH neutro. Após 4 anos de trabalho envolvendo bibliotecários, auxiliares de bibliotecas e estagiários, o Espaço HQ foi inaugurado em 2017 e toda a coleção pode ser consultada pelo catálogo on-line da Biblioteca. Devido a completude da coleção e raridade de alguns números, a coleção se tornou especial, dentro da biblioteca universitária. Consideramos que a experiência adquirida no tratamento descritivo e temático da coleção deve servir a outras bibliotecas que se interessem em catalogar esse tipo de material permitindo acesso a essa coleção, uma vez que a literatura e as bibliotecas brasileiras oferecem pouco subsídio sobre o tema.

Palavras-chave: histórias em quadrinhos representação descritiva. histórias em quadrinhos
representação temática. coleção especial. bibliotecas universitárias.

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Ontologia da arte (de massa) dos quadrinhos

Autor: Fabio Mourilhe
Cuadernos de Músicas, Artes Visuales y Artes Escénicas/Bogotá – Colombia.

Os quadrinhos são uma arte de massa que é comercializada, produzida e distribuída com o auxílio das tecnologias de massa (Mourilhe, p. 3).

A arte de massa prevalece no mundo industrializado. É experiência estética da maioria. Contudo, na contramão da indústria, podemos perceber, com os fanzines e quadrinhos independentes ou underground, práticas artesanais de distribuição em massa e sem grandes processos de produção, com uma concentração local (Mourilhe, p. 3).

A arte (de massa) dos quadrinhos em geral é uma arte popular, mas pode envolver também aspectos da arte erudita que se popularizam. Traz características que indicam sua localização precisa na história. Carroll (2013, 101) indica uma diferença entre arte popular e arte de massa, onde a primeira é uma arte que está presente em todas as culturas e não está associada a um determinado período histórico. A segunda seria aquela que “surgiu no contexto da sociedade industrial moderna, sociedade de massa, e é expressamente destinada para uso desta sociedade”, como ocorreu com os quadrinhos – e também no cinema, na fotografia e na música massiva. Emprega tecnologias de massa, aqui como mídia, pra disseminar esta arte entre os consumidores (Mourilhe, p. 4).

Para Kunzle (1973, 3), a mídia de massa surge com a impressão e Gutenberg. Antes disso, não seria possível falar em mídia de massa (Mourilhe, p. 6).

Adaptando o exemplo de Carroll (2013, 113) sobre uma ficção popular, podemos dizer que, se todas as cópias de um gibi forem queimadas, a obra ainda continuaria a existir. Talvez aqui possamos pensar em uma redução do status ontológico da obra de arte de massa. Ao perder a multiplicidade, resta a singularidade e se aproxima da obra de arte. […] Esta recepção da obra original só é possível graças às cópias, uma “multiplicidade de instâncias de realização da mesma obra” (Carroll 2013, 114 apud Mourilhe, p. 7).

MOURILHE, Fabio. Ontologia da arte (de massa) dos quadrinhos. Cuadernos de Música, Artes Visuales y Artes Escénicas, Bogotá, D.C., Colombia, vol. 12, n. 2, jul-dez 2017 . Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=6103267.

Uma análise do discurso quadrinístico: práticas institucionais e interdiscurso, de Lucas Costa

Autor: Lucas Piter Alves Costa

Resumo:
Desde que os Quadrinhos começaram a se tornar objeto de estudos, tem sido comum o esforço em defini-los por parte de alguns pesquisadores, teóricos e profissionais da área. A compreensão do que sejam os Quadrinhos está intimamente ligada à compreensão de sua origem, de seu percurso histórico, dos usos e aplicações de sua linguagem, bem como da evolução e, sobretudo, da diversificação desses aspectos. A história dos Quadrinhos, então, assume diferentes feições a depender dos aspectos valorizados. Como produtos de natureza fortemente heterogênea, os gêneros dos Quadrinhos colocam em movimento todo um sistema de práticas institucionais que, por sua vez, também podem ser associadas às Artes e à Mídia. Independente da origem e da definição adotadas, o estado atual dos Quadrinhos revela que esse nicho cultural passou por inúmeras mudanças, vindo a se consolidar como área relativamente autônoma no panorama cultural. Tanto sua linguagem e suas temáticas se desenvolveram, quanto suas formas de produção, circulação e recepção. Como instituição discursiva, os Quadrinhos têm práticas sociais e discursivas próprias e tendem a compartilhar outras práticas com diversas instituições. Diante dessas observações, os objetivos deste trabalho são: (a) descrever algumas práticas linguageiras do campo quadrinístico; (b) verificar o funcionamento do nome de Autor na instituição discursiva quadrinística; (c) analisar a constituição do nome de Autor no discurso quadrinístico. O percurso de análise e elaboração teórica deste trabalho buscou descrever a estrutura do campo quadrinístico e as práticas sociais e discursivas que possibilitaram instituir os Quadrinhos como domínio relativamente autônomo. Este trabalho buscou estabelecer uma distinção entre o Autor tomado como sujeito no discurso e o Autor tomado como enunciado, ou seja, produto desse mesmo discurso. Para isso, foram descritos e analisados diversos regimes de autorialidade no Discurso Quadrinístico. A análise dos Quadrinhos possibilitou concluir que o nome de Autor é um tipo de enunciado complexo sustentado coletivamente por toda instituição discursiva.

COSTA, Lucas Piter Alves. Uma análise do discurso quadrinístico: práticas institucionais e interdiscurso. Tese (Doutorado em Linguística do Texto e do Discurso) Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais. 2016. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/MGSS-ACENCR. Acesso em 27 fev. 2025.

A revista Gibi e a consolidação do mercado editorial de quadrinhos no Brasil (2014)

Autor: Waldomiro Vergueiro

Resumo:

Este trabalho resulta de pesquisa que teve como principal objetivo demonstrar a trajetória da produção editorial de histórias em quadrinhos no Brasil ao longo do século XX. Nesse período, pode ser percebida a passagem da referência europeia para a norte-americana em relação às histórias em quadrinhos e também aos formatos editoriais adotados. A análise da revista Gibi, uma das mais importantes do mercado editorial nacional, ajuda a ampliar a compreensão das mudanças nessa área

VERGUEIRO, Waldomiro e SANTOS, Roberto Elísio dos. A revista Gibi e a consolidação do mercado editorial de quadrinhos no Brasil. Matrizes, v. 8, n. 2, p. 175-190, 2014 . Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v8i2p175-190.

Uma pesquisa que não está no gibi: um estudo com colecionadores de revistas em quadrinhos

Autores:
Luciano José Martins Vieira
Neusa Rolita Cavedon

Resumo: O presente exercício etnográfico tem como objetivo identificar as peculiaridades da relação existente entre colecionadores porto-alegrenses de histórias em quadrinhos (HQs) de superaventura com as suas revistas. O referencial teórico aborda as HQs de superaventura e as principais características da cultura do consumo, focando em uma de suas consequências, o colecionismo. Para a coleta de dados foram utilizadas as técnicas de observação participante com idas a campo na Feira do Gibi de Porto Alegre e foram realizadas entrevistas com expositores e frequentadores do evento. Os resultados apontam que o colecionar HQs extrapola a dimensão utilitária do consumo, pois as revistas são adquiridas para serem conservadas e lidas novamente por representarem aspectos da vida do colecionador e ser fonte de satisfação para ele, proporcionando, inclusive, uma sensação de obtenção de alguma forma de imortalidade. As coleções não iniciam deliberadamente, mas uma vez constituídas, a busca e aquisição de novos itens ocorrem com regularidade e a formação do acervo segue critérios definidos. A possibilidade de retirada de um item da coleção é considerada algo negativo. O colecionar envolve o consumo contínuo já que as coleções nunca estarão completas, pois sempre existirão novas revistas interessantes para serem adquiridas.


Belk et al. (1988) apontam oito proposições sobre o colecionismo:

a) As coleções raramente são iniciadas de forma proposital: elas frequentemente começam a partir de uma ação acidental ou inesperada, como o recebimento de um presente ou de uma herança. Normalmente os colecionadores percebem que
têm uma coleção somente após já terem reunido certa quantidade de itens.

b) A prática de colecionar apresenta aspectos viciantes e compulsivos: apesar do início inesperado muitas coleções tornam-se uma atividade viciante de busca e aquisição do objeto colecionado (compulsão), que envolve euforia e angústia e que ocasionalmente causa repercussões negativas na vida pessoal e social do colecionador. O fato de vários colecionadores prontamente reconhecerem que estão “viciados” pela coleção indica o poder da atração do reconhecimento social da atividade compulsiva de aquisição conferida ao colecionismo.

c) A aquisição de bens ocorre como arte ou ciência de modo que existem dois tipos (puros) de colecionadores: a) o que adota critérios afetivos para selecionar os itens da sua coleção, não havendo a necessidade de ter uma série completa, pois o que importa é aumentar a beleza da coleção; e, b) aquele que usa critérios cognitivos para a escolha dos itens da coleção, em que há a procura de itens que formem uma série e que aprimorem o seu conhecimento. Ressalta-se que o
reconhecimento da sua coleção por outras pessoas dá ao colecionador um senso de que a sua coleção tem um propósito nobre posto que ela auxilia na construção do conhecimento e na preservação de algo importante.

d) Há uma sacralização do objeto quando ele passa a fazer parte da coleção: ele recebe uma condição extraordinária, especial e digna de reverência, incorporando a conotação de veículo de experiência transcendental que excede seu aspecto utilitário e estético. A sacralização pode ocorrer pela definição de um espaço físico específico (gaveta, caixas, armários, quartos e até mesmo um apartamento só para abrigar os itens colecionáveis) para a coleção e de maneiras especiais para o manuseio dos itens; pelo fato do objeto ter tido contato com pessoas importantes ou por ter sido parte de outra coleção. A venda dos objetos sacralizados só é considerada se for para adquirir um item considerado mais valioso.

e) As coleções são uma extensão do colecionador: a dedicação de tempo e o esforço empreendido para montar uma coleção significa que o colecionador coloca uma parte de si nela. A coleção dá visibilidade aos gostos e preferências de seu dono. A noção de que as coleções representam tal extensão considera os motivos pelos quais a pessoa inicia a coleção, como lembranças da infância, conhecimento, prestígio, autoridade e controle.

f) As coleções tendem à especialização: com o acréscimo do conhecimento do colecionador sobre determinado tema ocorre uma delimitação do tipo de item que será colecionado, o que também possibilita a chance da sua coleção ser única.

g) Como a manutenção de uma coleção intacta é uma forma de obter a imortalidade, a decisão sobre o que fazer com ela após a morte do colecionador por vezes resulta em problemas familiares quando a sua família não possui interesse em dar
continuidade à coleção.

h) Há simultaneamente um medo e um desejo em completar uma coleção, pois a aquisição contínua reforça o senso de perícia e proeza. Para evitar o medo o

colecionador adota duas estratégias: a) ter novas coleções (de novos itens ou de variações do objeto já colecionado); b) ter coleções que são adquiridas de maneira sequencial, não podendo ser adquiridas simultaneamente.

(VIEIRA e CAVEDONK, 2013, p. 15-16)

VIEIRA, L. J. M.; CAVEDON, N. R. Uma pesquisa que não está no gibi: um estudo com colecionadores de revistas em quadrinhos. GESTÃO.Org – Revista Eletrônica de Gestão Organizacional, v. 11, n. 1, p. 1-33, 2013. Disponível em: http://www.spell.org.br/documentos/ver/11608/uma-pesquisa-que-nao-esta-no-gibi–um-estudo-com-colecionadores-de-revistas-em-quadrinhos