Do gibi à gibiteca

Do gibi à gibiteca: origem e gênese de significados historicamente situados
Autor: Richardson Santos de Freitas

Orientadora: Lorena Tavares de Paula

Monografia apresentada em 14 de novembro de 2023 à Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), como atividade optativa do curso de graduação em Biblioteconomia.

Banca:
Waldomiro de Castro Santos Vergueiro
Lígia Maria Moreira Dumont
Terezinha de Fátima Carvalho de Souza

RESUMO
Esta pesquisa faz um estudo sobre a palavra gibi, através do método histórico, investigando as mudanças de seu significado e sua assimilação sociocultural. Considera-se que esse gênero artístico e fonte de informação para desenvolvimento de coleções especiais prescinde de estudos críticos sobre abordagens teóricas, lexicais e historiográficas para melhor compreensão desses materiais para o desenvolvimento de coleções. Nesta investigação, os primeiros registros foram encontrados em jornais de 1888, pesquisados na Hemeroteca Virtual da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil. Constatou-se que inicialmente gibi era um apelido atribuído a pessoas negras. Posteriormente, transformou-se em uma gíria racista direcionada aos meninos negros, possuindo o sentido pejorativo de feio e grotesco, publicados em anúncios e em páginas de quadrinhos de periódicos. Depois a palavra passou a ser usada para designar os meninos negros que vendiam jornais nas ruas. Desses pequenos vendedores surgiu a inspiração para o título da revista Gibi, lançada em 1939 pela editora O Globo. O sucesso de vendas da revista, a ampla publicidade, o investimento em relações públicas e o cenário de críticas aos quadrinhos vindas principalmente de adversários da editora transformaram a palavra gibi em sinônimo de revista de histórias em quadrinhos no Brasil, fazendo o sentido original cair em desuso. A popularização do termo inspirou as bibliotecas brasileiras a adotarem a denominação de gibiteca para seus acervos de quadrinhos.

ORIGEM E GÊNESE DA PALAVRA GIBI (GIBY)

A pesquisa começou pela busca do significado da palavra gibi nos dicionários disponíveis nos acervos das bibliotecas da Faculdade de Ciência da Informação, da Faculdade de Letras e da Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Minas Gerais. Ao todo foram encontradas 23 edições, de diferentes editoras, publicadas entre 1940 a 2011. 

O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa de 2010 é o exemplar com o maior detalhamento do significado da palavra gibi. O termo é definido como um substantivo masculino e um brasileirismo, isto é, próprio do português do Brasil. A palavra é sinônimo de revista em quadrinhos, mas o dicionário também informa que é uma gíria em desuso atribuída a menino negro:

gibi. S. m. Bras. 1. Gír. Desus. Meninote preto; negrinho. 2. Nome registrado de determinada revista em quadrinhos, infatojuvenil. 3. P. ext. Qualquer revista em quadrinhos. 4. Publicação interna […] (Ferreira, 2010, p. 1030, grifo nosso).

São raros os vestígios do uso de gírias até o fim do século XIX. “[…] com o crescimento das cidades brasileiras, em particular da capital, o Rio de Janeiro, observamos que a gíria começa a fazer parte da linguagem dos grupos sociais […]” (Preti, 2001, p. 60). Esse uso coincide com o aumento da circulação de jornais que passam a exercer influência social e política nos centros urbanos. 

A gíria é um fenômeno sociolinguístico que constituiu um vocábulo tipicamente oral. Ela é um código que pode pertencer a um grupo social restrito ou transformar-se em um fenômeno que extrapola essa comunidade, tornando-se popular. Segundo Preti (2001, p. 68) os especialistas possuem dificuldade em encontrar a evolução e as transformações de sentido referente à língua oral porque a documentação escrita existente é precária e ocasional. 

O desconhecimento da origem da gíria gibi é citado em dois dicionários, que usam o termo “origem obscura”. No Novíssimo Aulete: Dicionário contemporâneo da Língua Portuguesa define gibi como “[…] 2. Gír. Menino negro; Negrinho [F.: De or. Obsc.]” (Aulete, 2011, p. 711, grifo nosso). O Dicionário Houaiss confirma que a palavra informal brasileira tem origem etimológica desconhecida, registrando “gibi s.m. B. Infrm. 1 garoto negro; negrinho. […] ETIM orig. obsc.” (Houaiss; Villar, 2007, p. 1449, grifo nosso). 

No Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa há uma segunda definição, que diz que gibi vem do latim gibbus possuindo o significado de giba, ou seja, uma pessoa corcunda ou com o corpo disforme.

gibi. [Do lat. gibbus, í.] El. comp. = ‘giba’, ‘corcunda’; gibífero, bibifloro.   (Ferreira, 2010, p. 1030).

giba. [Do lat. gibba.] S. f. 1. V. corcunda (1): “Seu corpo disforme, cheio de gibas de gordura, dava-lhe aspecto de grande besouro castanho e zumbidor, “ (Cornélio Pena, A Menina Morta, p. 20) […] (Ferreira, 2010, p. 1030).

O exemplo do uso da palavra, que aparece na edição do dicionário Aurélio, trata-se de trecho da obra de Cornélio Penna intitulada “A Menina Morta”. Ambientada no tempo da escravidão, o livro conta a história da morte da filha de um senhor de pessoas escravizadas e os preparativos para o enterro. Um dos personagens, o senhor Justino, é um homem adulto que possui o cargo de administrador da fazenda. Justino foi encarregado de levar um pedido dos escravizados ao seu senhor. Eles desejariam acompanhar o cortejo fúnebre da menina. Justino é descrito como um negro “cheio de gibas de gordura” por ser tão gordo que aparentava ser disforme. 

No Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, organizado por Laudelino Freire, publicado em volumes entre 1940 a 1943, traz a descrição de que gibi é a “Forma inexata de jibí” (Freire, [194?], v. 3, p. 2725). Jibí é “s.m., Gír. 1 Negrinho, moleque. || 2. Tipo feio, hediondo, grutesco.” (Freire, [194?], v. 4, p. 3073, grifo nosso). Nenhum outro dicionário possui essa alternativa de grafia e não se encontrou nenhum registro de jibí em jornais ou revistas na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Ainda na década de 1940, o dicionário Lello define “Gibi, s. m. Pop. Negro, Typo feio e grotesco” (Lello, [194?], p. 1157, grifo nosso). A definição do Dicionário Brasileiro Contemporâneo Ilustrado, elaborado por Francisco Fernandes, que traz “gibi. s.m. (bras.) (pop.) Moleque; negrinho; indivíduo feio, grotesco” (Fernandes, 1965, p. 558, grifo nosso). Essas definições indicam que o uso da palavra era empregado para definir criança negra e estava vinculada a um segundo sentido pejorativo de pessoa feia, grotesca e hedionda.

Sabendo da dificuldade para se encontrar a origem da gíria gibi, optou-se por mapear o momento em que o seu uso tornou-se popular, incorporado aos textos jornalísticos. O trabalho pesquisou a palavra em jornais e revistas que circulavam no Brasil antes de 1939, data de lançamento da revista Gibi. O objetivo era encontrar a palavra sendo usada no seu sentido mais antigo. Durante esta busca, percebeu-se que gibi poderia assumir a forma variante giby, que foi incorporada nas buscas.

Alcunha Giby/Gibi

A mais antiga menção de gibi encontrada na hemeroteca virtual da Biblioteca Nacional tem a grafia de giby. A palavra está em uma nota na seção de notícias policiais da Gazeta da Tarde da edição que circulou na cidade do Rio de Janeiro em junho de 1888. O ano é marcado pela Lei Áurea, assinado em 13 de maio, no processo gradual do fim da escravidão no país. Sem nenhum tipo de compensação ou integração social, os recém-libertados se viram na situação de continuar trabalhando nas fazendas como assalariados ou seguir para os grandes centros urbanos em busca de alguma ocupação. Porém, esses centros urbanos não foram capazes de absorver o novo contingente de mão de obra, aumentando o número de pessoas desocupadas que vagavam pelas cidades em busca de sobrevivência. 

O crime de vadiagem já era usado para o controle social desde a promulgação do Código Criminal do Imperio do Brazil em 16 de dezembro de 1830. O mecanismo ganhou regulamentação através do Código do Processo Criminal de 1832, que em seu artigo 12 detalhou as competências e procedimentos dos Juízes de Paz diante de vadios, mendigos ou qualquer outra pessoas que perturbasse o sossego público:

§ 1º Tomar conhecimento das pessoas, que de novo vierem habitar no seu Districto, sendo desconhecidas, ou suspeitas; e conceder passaporte ás pessoas que lh’o requererem.

§ 2º Obrigar a assignar termo de bem viver aos vadios, mendigos, bebados por habito, prostitutas, que perturbam o socego publico, aos turbulentos, que por palavras, ou acções offendem os bons costumes, a tranquillidade publica, e a paz das familias. (Brasil, 1932).

As pessoas fora do mercado de trabalho eram consideradas perigosas pela elite imperial e, por isso, o termo de bem viver foi o instrumento jurídico criado para vigiar, punir e segregar os indivíduos pobres livres, estigmatizados como vadios ou vagabundos. Eduardo Martins esclarece que: 

No contexto de uma sociedade escravista, em que o controle dos senhores no máximo abrangia escravos agregados, a criminalização da vadiagem se constituiu em poderoso recurso de controle extra-econômico utilizado pelas autoridades para constranger os pobres livres ao trabalho. (Martins, 2003, p. 64-65).

Na seção “Pela Polícia” da Gazeta da Tarde em 4 de julho de 1888 (Figura 1), está noticiado que “Assignou termo de bem viver, como vagabundo, na subdelegacia da freguezia da Lagoa, Joaquim dos Santos, vulgo Giby.” (Pela polícia, 1888, p. 3). A mesma notícia foi publicada no dia seguinte, nas seções dedicadas as notícias policiais do Diario de Noticias e Jornal do Commercio, ambos da cidade do Rio de Janeiro. O Jornal do Commercio acrescentou ao fato a informação de que Joaquim dos Santos recebeu a punição de três meses de prisão e foi encaminhado para a casa de correção.

Figura 1 – Vulgo Giby assina termo como vagabundo.   Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, n. 125, 4 de junho de 1888. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional

Em 12 de janeiro de 1890 foi encontrado o segundo registro de pessoa com a alcunha Giby publicado na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, onde é relatado a agressão do “[…] famigerado capoeira Noberto de Oliveira, conhecido pela alcunha de Giby, autor da navalhada […]” (Mais um, 1890, p. 1). Segundo o texto da gazeta, Giby tinha dado golpes de navalha em um caixeiro da padaria da rua da Lapa. Uma segunda agressão de Giby aconteceu a um indivíduo que passava pela rua, provocando abundante hemorragia. O capoeirista foi detido pelo subdelegado da freguesia da Glória e encaminhado ao chefe de polícia. 

Em 6 de junho de 1891, “Arminda Candida de Jesus, vulgo Gibi […]” (Policia, 1891, p. 5) foi presa por desordem, junto com Deolinda Alberta Ramos, Leovina Silveira da Silva e Maria da Conceição. Nessa nota, a palavra é grafada com a letra i é dada a uma mulher. O segundo registro de alcunha dada a uma pessoa do sexo feminino pode ser encontrado na Gazeta de Petropolis. Em 23 de setembro de 1899, a edição do jornal traz a informação sobre o desaparecimento de “[…] uma menor de côr preta de nome Maria, com alcunha de Gibi […]” (Menor […], 1899, p. 3). A falta da menina aconteceu no dia 19 de setembro. Foi informado que ela tinha 9 anos, era órfã e estava sob os cuidados de um tutor. Quem achasse a menina seria bem gratificado. A nota informava que, caso fosse encontrado o raptor, ele seria punido com as penas da lei.

Diferente de Maria, não foram encontradas descrições físicas ou informações sobre a idade de Joaquim dos Santos, Norberto de Oliveira e Arminda Candida de Jesus. Não há registro nos jornais sobre o destino deles após o período de detenção. Também não foi encontrado notícia se a menina Maria foi localizada. O que há em comum nestas histórias, que circularam no estado do Rio de Janeiro entre 1888 e 1899, é o uso da palavra como alcunha, sendo Giby vinculados à figura masculina e Gibi ligado à figura feminina.

De preto a mulato

O que era uma alcunha passou a ser usado como gíria genérica atribuída às crianças negras. No jornal O Rio-Nú, de 11 de janeiro de 1905, há uma ilustração (Figura 2) intitulada “De preto a mulato” onde uma mulher branca amamenta uma criança negra na intenção de transformá-la em mulata. 

Figura 2 – De preto a mulato.  O Rio-Nú, Rio de Janeiro, n. 680, 11 de janeiro de 1905. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

O termo mulato passou a ser usado no fim do século XVI, no Brasil colônia, para os descendentes mestiços, que sofreram preconceitos e sanções impostas pelo Estatuto de Limpeza de Sangue português:

[…] os mulatos eram considerados uma “raça infecta”, sendo-lhes vetado o acesso a determinados cargos públicos e títulos de nobreza. A despeito disto, muitos conseguiram assumir postos de proeminência no Brasil colonial e conquistaram títulos nobiliárquicos. Com o tempo, o termo mulato passou a ser associado à cor, identificando aqueles cujo tom de pele estaria entre o negro e o branco. (Pureza […], 2021).

A tese de raça humana superior, conhecida como eugenia, surgiu em 1883 na Inglaterra e defendiam práticas que tinham o objetivo de melhorar as características genéticas de uma população. A elite brasileira passou a se preocupar com isso ainda no período colonial ao constatar que a maior parte da população era formada por africanos, indígenas e miscigenados. Como isso, houve o incentivo à imigração, principalmente de europeus, com o objetivo de promover o branqueamento do país.

O Rio-Nú era um periódico de humor que começou a circular no Rio de Janeiro em 1898. Produzido por jovens, era um jornal conhecido por uma linha editorial de transgressão, contendo muitas críticas ácidas à sociedade e conteúdo erótico. Explorou nas ilustrações e nos contos a imagem da mulher como figura poderosa, sedutora e tentadora. “Com o fim da escravidão, a entrada de milhares de imigrantes e o sucesso de teorias científicas como o evolucionismo, a mulher branca passou a ser mais valorizada que a mulher negra” (Costa, 2021, p. 466). Costa conclui que o jornal, feito por homens e para homens, transitava entre o rompimento da moralidade e o reforço das hierarquias socioculturais, trazendo a imagem da mulher fatal como uma ameaça aos bons costumes e à estabilidade das famílias. 

O desenho da edição 680 pode ser lido como uma metáfora deste tempo, onde a mulher branca – de corpo farto, perigosamente sedutora e cobiçada – simbolizava a nação que alimentava os meninos negros – os gibis-, transformando-os em mulatos. Na legenda: “Tenho esperança de que farei deste gibi um mulatinho. Desta mistura não pode deixar de sahir café com leite” (De preto […], 1905, p. 4). A questão do branqueamento da população pode ser percebida na citação da mistura dos líquidos. O leite acrescentado ao café preto, deixava a bebida com uma tonalidade mais clara, assim como os anseios da sociedade de ideais eugenistas em transformar o Brasil em um país mais civilizado.

Feio como um giby

Nova menção de giby é encontrada em O Tico-Tico. Fundada em 11 de outubro de 1905 pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva, a revista foi a primeira do país a ser direcionada ao público infanto-juvenil. Suas edições continham história em quadrinhos, ilustrações, textos e passatempos. Chegou a ter tiragem de 100 mil exemplares por semana, tornando-se um grande sucesso editorial. Para a edição de 2 de maio de 1906, o artista J. Carlos criou a série “O talento do Juquinha”, que passou a ocupar as capas. Juquinha era um menino branco e travesso que a cada história criava uma traquinagem diferente. Esse atentado garoto ganhou um companheiro de aventura em 16 de outubro de 1907. Era Giby, um menino negro retratado de forma estereotipada. 

O conceito de estereótipo é definido por Lakatos (1989, p. 108) como uma prática de “construções mentais falsas, imagens e idéias de conteúdo alógico que estabelecem critérios socialmente falsificados.” Segunda a socióloga, se atribui às pessoas as características e  generalizações que não existem na realidade. A formação de estereótipos depende principalmente da posição social e cultural dos indivíduos e dos grupos, atingindo principalmente a classe, etnia e religião. Podem ser do tipo positivo e negativo, sendo que este segundo tem o objetivo de isolar e diminuir a oportunidade de experiências novas. Um dos colaboradores para a propagação dos estereótipos são os meios de comunicação de massa.

A origem do esteriótipo dos negros nos desenhos humorísticos pode ser traçada quando artistas brancos dos Estados Unidos da América do Norte do século XIX passaram a encenar personagens cômicos pintando o rosto de preto. “O blackface é uma técnica de maquiagem teatral, na qual pessoas brancas pintam-se de negras para imitá-las de forma caricata, o que reforça características físicas, estereotipando-as com o intuito de fazer piada” (Ferreira, 2017). A prática era usada para divertir a aristocracia branca escravocrata. O pesquisador Nobuyoshi Chinen cita o estudo de 2003 feito por Michael D. Harris denominado Colored pictures: Race & visual representation, que analisou charges e identificou que esse estereótipo passou a ser usado por chargistas, que trouxeram essas expressões exageradas para os seus desenhos em publicações de grandes tiragens. Entre as mais famosas está a série de gravuras da editora Currier e Ives, impressa em 1880 e distribuída para vários países. “[…] essa tradição já existia desde o final da década de 1820, mas o sucesso das gravuras da Currier e Ives foi determinante para popularizar esse tipo de representação humorísitca dos negros” (Chinen, 2013, p. 50). 

O estilo de representação estereotipada pode ser encontrado no personagem Giby de J. Carlos, com sua cor de pele preto chapada, seus olhos esbugalhados e grandes lábios vermelhos. Na primeira aparição (Figura 3), de subtítulo “A ignorância de Giby”, Juquinha espanta-se com a cor do garoto ao deparar-se com o “[…] moleque mais preto que até hoje tem se visto” (Carlos, 1907, p. 1). Nessa primeira história descobre-se que o nome do menino é Izidóro Carneiro, o novo copeiro da casa. Giby foi o apelido dado por Juquinha ao garoto para debochar de sua cor e condição social. Juquinha ainda completa a fala afirmando “Carneiro… preto… considerou Juquinha. Ha de ser burro por força.” 

Com a inserção de Giby nas histórias, Juquinha continuou a aprontar as suas confusões, só que desta vez quem levava a pior era o seu companheiro de brincadeiras. A relação de submissão foi comum nas oito vezes que a dupla foi publicada em O Tico-Tico, seguindo o padrão onde Juquinha sempre colocava Giby em uma situação constrangedora.

Figura 3 – A figura estereotipada de Giby, de J. Carlos. O Tico-Tico, n. 106, 16 de outubro de 1907. Rio de Janeiro. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

Outra associação racista pode ser encontrada na edição de O Tico-Tico, de 23 de outubro, em um anúncio do Sabão Aristolino. A propaganda diz que o produto cura as moléstias da pele dos meninos. Na ilustração, a mãe arruma o lenço no pescoço de seu filho branco e o texto argumenta que, mesmo bem vestido, se ele não usar o produto pode ficar com nojo de si mesmo. “Enquanto eu não usar o Sabão Aristolino não fico bom, e enquanto não ficar bom, posso andar vestido como um príncipe, que serei sempre feio como um giby” (O Tico-Tico, n. 107, 1907, p.13). Mais um registro em que os meninos negros, conhecidos como gibys, são associados a nojo e figuras grotescas. Um novo personagem de nome Gibi surgiria nas páginas de O Jornal em 1931. Adquirido por Assis Chateaubriand em 1924, este jornal foi o primeiro veículo de comunicação que daria origem aos Diários Associados. Tinha aos domingos as páginas dominicais do “Jornal das Crianças”, comandada pelo editor Tio Haroldo, que anunciou a criação de um suplemento infantil. A novidade traria as tiras da dupla Pirolito e Gibi. Segundo a descrição da apresentação, “Pirolito é branco. Gibi é preto. Mas apesar disso os dois são amigos inseparáveis de traquinadas” (O Jornal, n. 3963, 1931, p. 1). A estreia de Pirolito e Gibi aconteceu na edição número um do Suplemento Infantil, no dia 21 de outubro de 1931. O roteiro básico trazia o menino negro sofrendo com as brincadeiras do menino branco. A situação de maldade era tão explícita, que a leitora Delia O. Cabral enviou uma carta para a “Caixa de Correio do Supplemento Infantil d’O Jornal”, onde deixa claro que ela ficou com pena de Gibi e que esperava que ele não caísse mais nas brincadeiras de Pirolito. Percebendo a perversidade das brincadeiras, O Jornal publica um editorial do Tio Haroldo onde informava que esses garotos iriam levar a vida um pouco mais a sério. Pirolito anuncia, em sua última aparição, que irá entrar para o Colégio interno de Laffayette. O personagem deixa as histórias como começou, passando a perna em Gibi na venda de uma bola de futebol. Na segunda fase, em 1932, Gibi ganha a companhia de Pedrinho e Eunicinha. O trio continua criando confusões, mas o roteiro fica mais leve e sem penalizar Gibi. Porém, no final de 1933, o menino volta a ser retratado como um serviçal, o “pretinho da casa” (Figura 4) e um tolo que tem dificuldade de aprender e de executar uma ordem de forma eficiente:

Ninguém descobriu ainda na casa de Pedrinho se o Gibi é mais vadio do que burro ou mais burro do que vadio. O que todos sabem porém, com absoluta certeza, é que o creolinho é a cretura mais diffícil que existe para entender um recado. (Supplemento Infantil, n. 67, 1934, p. 1).

Figura 4 – Gibi, o pretinho da casa. Supplemento Infantil. O Jornal, Rio de Janeiro, n. 58, 17 de dezembro de 1933. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

Mais um registro da palavra pode ser observado em 1943. Nas “Aventuras de Chiquinho”, desenhada por Luís Gomes Loureiro, o personagem Pituca passeia ao lado de sua mãe em direção à casa de Chiquinho. Chegando lá, depara-se com Benjamin. Ao avistá-lo, Pituca pergunta: “- Mamãe, quem é esse gibi?”. O texto continua dizendo que “O Benjamin coitado, ficou danado, mas nada respondeu naquele momento” (Loureiro, 1943, p. 40). No final, Benjamin se une a Chiquinho para dar uma lição no garoto malcriado.

Os registros encontrados mostram como o termo gibi transitou de uma alcunha para transformar-se em gíria. Algumas vezes grafadas como y no final, outras com i, gibi deixou de ser atribuído as meninas e passou a ser usado genéricamente para indicar todos os meninos negros, sempre acompanhada de adjetivos negativos como feio, grotesco, vadio e burro.

Gibi: o pequeno jornaleiro negro

O crescimento da mídia impressa contou com a contratação de uma rede de trabalho infantil. Alberto Dines (2013) nos conta que os vendedores de rua surgiram no período da Revolução Francesa, onde crianças anunciavam panfletos e pasquins revolucionários em Paris. Quando os jornais aumentaram sua tiragem, foi necessário que pessoas circulassem pelas cidades para vender as edições. Em um primeiro momento foi usado vendedores adultos, mas logo se descobriu que crianças podiam fazer esse mesmo trabalho por um custo muito menor. 

No Brasil, o uso de vendedores de rua começou quando “Em 1858, A Atualidade contratou escravos e recém-libertos para vender os exemplares e outros jornais copiaram a ideia” (Dines, 2013). A vinda de imigrantes para o país, a partir de 1875, trouxe a experiência das gazetas europeias e os jovens, principalmente os de descendência italiana, passaram a trabalhar nas redes de distribuição de jornais e tornaram-se posteriormente poderosos empresários do setor. Mas a maioria dos vendedores de jornais eram meninos pobres que ajudavam a sua família a trazer algum tipo de sustento para a casa ou eram crianças órfãs e abandonadas tentando sobreviver. As empresas de jornais usaram dessa condição social para contratar esses menores para a distribuição de seus exemplares. Eles ficaram conhecidos como os pequenos jornaleiros.

Na estreia da revista O Tico-Tico, logo na capa da edição 1 do ano 1, podemos encontrar a história em quadrinhos que mostra os desenhos de uma passeata de crianças que reivindicam um jornal só para elas. Com isso, a editora Malho cria O Tico-Tico. Mas um pai desatento chega em casa e esquece de comprar a edição para seus filhos, achando que biscoitos seriam suficientes para satisfazer as crianças. Porém os filhos Carlito e Zezé se mostram decepcionados e se revoltam. A mulher e a sogra cobram do homem que ele satisfaça o desenho das crianças. Então o senhor volta para a rua e encontra um pequeno jornaleiro negro (Figura 5), que lhe vende três exemplares (a sogra também queria ler).

Figura 5: Pequeno jornaleiro negro vende O Tico-Tico na rua. O Tico-Tico, n. 1, de 11 de outubro de 1905. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

Em 6 de novembro de 1935, mais um registro encontrado na revista O Tico-Tico, que publica um texto em formato de uma pequena peça de teatro intitulado “Em tempo de Guerra…” (Figura 6). Escrito por E. Wanderley, a história traz dois meninos negros, vendedores de jornais. Na descrição dos personagens a indicação de “Tição e Gibi: pretinhos vendedores de jornaes” (Wanderley, 1935, p. 14). Eles comentam sobre suas vendas e discutem as notícias sobre a guerra da Itália com a África que causam angústia no seu patrão, o imigrante italiano De Bonetti.

Figura 6: Pretinhos vendedores de jornaes. O Tico-Tico, n. 1570 , de 6 de novembro de 1935. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

Esses pequenos jornaleiros acabaram se tornando um grande problema social. Por morarem em locais longe do trabalho ou por sua condição de abandono, muitos desses garotos acabavam dormindo nas ruas próximas às editoras para facilitar o recebimento dos exemplares. Segundo Weinhardt (2017, p. 4), alguns começavam a jornada de trabalho no final da tarde, ficando expostos a riscos e acabavam entrando em contato com o submundo dos adultos, onde muitos se tornaram usuários de tabaco e de bebidas alcoólicas. 

As empresas jornalísticas passaram a fazer a defesa dos pequenos trabalhadores porque a imagem dessas entidades estavam interligadas a esses vendedores. “O jornalista é um homem que mobiliza essa trincheira de combate e de defesa. Mas entre ele e o publico existe um elemento de contato – o pequeno jornaleiro” (Schmidt; Schmidt, 1938, p. 19). Editoriais exaltavam o trabalho duro dessas crianças, que circulavam pelas ruas, vielas, becos ou bondes, seja no calor ou no frio, com sol ou chuva, de manhã ou à noite. Na busca por melhores condições de vida para esses garotos, surge no Rio de Janeiro a primeira Casa do Pequeno Jornaleiro, em 1938, idealizada pela primeira-dama do Brasil Darcy Vargas. Funcionou como um abrigo que oferecia moradia, educação, alimentação e apoio médico.Os pequenos jornalistas tinham como concorrência as bancas de revistas. Inicialmente eram pontos de vendas feitos de tábuas de madeira sobre caixotes onde os jornais eram colocados. Criação do imigrante italiano Carmine Labanca em 1880, no Largo do Machado no Rio de Janeiro, o ponto fixo criou o hábito dos leitores irem “no Labanca” comprar o jornal. Outros gazeteiros abrem pontos de vendas em locais de grande fluxo de pessoas, fazendo com que os pequenos jornaleiros tivessem que se deslocar para locais mais afastados. A venda de jornais feitos por meninos perde a força na medida em que as bancas se espalham pelas cidades, suas estruturas evoluem e se tornaram o principal ponto de distribuição da produção editorial do país. A atividade de venda por crianças encerra-se completamente quando é promulgada a Constituição Federal de 1988, que em seu artigo 7º proíbe “o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de dezoito anos e de qualquer trabalho menores de quatorze anos, salvo na condição de aprendiz”. Em 1990, a consolidação da proteção contra a exploração do trabalho infantil vem através da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente.

A REVISTA GIBI

No final da década de 1930, o diretor do Grupo Globo, Roberto Marinho, entrou em uma disputa editorial no segmento de revistas em histórias em quadrinhos.

No início de 1939 começou a circular no jornal O Globo uma campanha publicitária enigmática que anunciava uma novidade com a letra G que fez muitas pessoas quebrarem a cabeça com o mistério. Em março é revelado que o G era de Gibi, a nova revista em quadrinhos. Ainda em março, no dia 17, o suplemento O Globinho publica a marca do Gibi, prometendo que um novo mundo de emoções inigualáveis estava por vir. No suplemento há a informação de que no número 1 seria publicada a história em quadrinhos de Charlie Chan, um detetive chinês aclamado pela crítica mundial. O lançamento teria o atrativo do sorteio de dois mil prêmios para os seus leitores, em conjunto com o Globo Juvenil.

Dois dias antes da estreia, um repórter do jornal circula pela cidade do Rio de Janeiro levando um exemplar da revista para registrar a expectativa e a reação das crianças. A reportagem de O Globo (n. 3933, 1939, p. 1-2) revela que os primeiros leitores de Gibi foram Haroldo, um garoto que saía de uma sessão do Cinema Parisiens; Klaus, um leitor fiel do Globo Juvenil; Antônio Costa, um garoto que adorava hqs de aviação; e Heleninha, que estava muito interessada na premiação do pianinho porque queria ser uma pianista. 

Em 12 de abril de 1939 estreia a revista Gibi. O nome escolhido foi inspirado na figura do pequeno jornaleiro negro que vendia jornais nas ruas. Na capa, ao lado da logo (Figura 7), aparecia o desenho de um menino com cor preta, careca, lábios grossos e olhos esbugalhados, vestindo uma camisa branca, bermuda com suspensórios e pés descalços. Ele está com um braço erguido, anunciando e convidando os leitores a lerem a revista.

Figura 7: Menino negro vendedor de jornal ao lado da logo da revista Gibi.
Gibi, Rio de Janeiro, n. 1, 12 de abril de 1939. Fonte: Acervo Jornal O Globo.

A partir do lucrativo sucesso da revista Gibi, o grupo O Globo usa todo o seu poder midiático de publicidade e relações públicas para consolidar o nome da revista no mercado editorial. Entretanto, a partir da década de 1940, uma forte onda de críticas aos quadrinhos surge no mundo e chega ao Brasil. Os concorrentes e opositores viram nesse cenário uma oportunidade de atacar o jornal O Globo usando a expressão “revistas do tipo gibi” para denunciar uma suposta influência negativa das revistas no seu público leitor. Tese elaborada por Gonçalo Junior em seu livro Guerra dos Gibis, fartamente documentada, esses ataques foram o principal catalisador para a última mudança de sentido.

Menores infratores lêem sua bíblia Gibi. Última Hora, Rio de Janeiro, n. 736, 5 de novembro de 1953. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

Desta forma, conclui-se que a gíria cai em desuso e assume o significado de revistas de hqs devido a soma de três fatores: 

  • o sucesso de vendas da revista Gibi, popular em sua época no momento da formação do mercado editorial competitivo no segmento das histórias em quadrinhos; 
  • os investimentos em patrocínios e ações de relações públicas do jornal O Globo que colocou a revista Gibi no imaginário do público infanto-juvenil; 
  • e as discussões contra e a favor das histórias em quadrinhos, onde opositores usaram a oportunidade do cenário crítico para tentar atingir e difamar Roberto Marinho e suas as empresas através da vinculação da marca Gibi como um nome genérico para representar todas as revistas do gênero, sinônimo de má literatura, influência negativa que levava a criminalidade infantil e juvenil, além de disseminar temas em desacordo com a moral e bons costumes.

O texto completo está no TCC abaixo:

TCC no Catálogo de Acervo da UFMG

FREITAS, Richardson Santos de. Do gibi à gibiteca: origem e gênese de significados historicamente situados. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Biblioteconomia) – Escola de Ciência da Informação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2023. Disponível em:
https://biblio.eci.ufmg.br/monografias/2024/RichardsonSFreitas.pdf

FREITAS, Richardson Santos de. PAULA, Lorena Tavares de. Do gibi à gibiteca: origem e gênese de significados historicamente situados. Biblionline, v. 19, n.1 (2023), Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2023, p. 3-19. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/biblio/article/view/64771

FREITAS, Richardson Santos de. PAULA, Lorena Tavares de. Do gibi à gibiteca: origem e gênese de significados historicamente situados. Memorial del Encuentro de Directores y de Docentes de Escuelas de Bibliotecología y Ciencia de la Información del Mercosul, 1(13), Montevidel, 2023. ISBN: 978-9974-0-2067-2 . Disponível em: https://encuentro-mercosur.fic.edu.uy/index.php/encuentro-mercosur/article/view/11


CLIPPING


41º Colóquio (parte 1): Do Gibi à Gibiteca: origem e gênese de significados historicamente situados – Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP


Academiczine n. 5 , de Gazy Andraus, em parceria com a editora Marca de Fantasia, de Henrique Magalhães.

Academiczine n. 5 – Resumo TCC
https://www.marcadefantasia.com/parceiros/academiczine/academiczine05/academiczine05.htm


Editora Pipoca e Nanquim faz vídeo sobre o origem da palavra gibi.

VEIGA, Edison. Gibi, 85 anos: a história da revista de nome racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil. BBC New Brasil. 12 de abril de 2024. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg3ldpgvgnlo#:~:text=Ele%20fez%20um%20apanhado%20hist%C3%B3rico,uso%20em%20jornal%20de%201888.

VEIGA, Edison. Gibi, 85 anos: a história da revista de nome racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil. G1. Pop & Artes. 14 de abril de 2024. https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2024/04/14/gibi-85-anos-a-historia-da-revista-de-nome-racista-que-se-transformou-em-sinonimo-de-hq-no-brasil.ghtml

VEIGA, Edison. Gibi, 85 anos: a história da revista de nome racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil. Folha. Ilustrada. 12 de abril de 2024. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/04/gibi-85-anos-a-historia-da-revista-de-nome-racista-que-se-transformou-em-sinonimo-de-hq-no-brasil.shtml

VEIGA, Edison. Gibi, 85 anos: a história da revista de nome racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil. Educar. Portal Terra. 12 de abril de 2024. https://www.terra.com.br/noticias/educacao/gibi-85-anos-a-historia-da-revista-de-nome-racista-que-se-transformou-em-sinonimo-de-hq-no-brasil,7ff77e7498552af416351f9e36e5cddavy1btrb8.html

VEIGA, Edison. Gibi, 85 anos: a história da revista de nome racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil. Diário do Centro do Mundo. 14 de abril de 2024. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/gibi-85-anos-a-historia-da-revista-de-nome-racista-que-se-transformou-em-sinonimo-de-hq-no-brasil/

CRB-6. A palavra “gibi” é racista? Pesquisadores da UFMG respondem. https://crb6.org.br/boletim-crb6/a-palavra-gibi-e-racista-pesquisadores-da-ufmg-respondem/