Banca de jornais e revistas

BANCAS DE JORNAIS E REVISTAS
Richardson Santos de Freitas

OBS: Artigo escrito em 2013, muitas informações, principalmente relativos ao avanço da venda e leitura digital, precisam ser atualizadas.

Este artigo se propõe a contar a trajetória das bancas de jornais e revistas no Brasil através do conceito de cultura material. A investigação passa por uma breve história do sistema de distribuição de jornais, o surgimento do empreendimento banca no país, a evolução em seu design e a atual situação do setor.

INTRODUÇÃO

“Partindo-se da compreensão do design com área produtiva fundamental na formação da cultura material contemporânea, entende-se a cultura material como o universo de coisas – objetos/artefatos – que permeiam a vida social, constitui-se no objeto de investigação de pesquisadores de diversas áreas, a começar, natural e tradicionalmente, pelos arqueólogos históricos, abrangendo campos afins, como a História da Arte, a Antropologia, a História e as Ciências humanas em geral.” (REIS, 2005, p1)

Desde a antiguidade as civilizações procuraram meios de registrar e retransmitir os fatos da História e do cotidiano da humanidade. Um meio desenvolvido para essa transmissão de informação foram os periódicos, que continham notícias, textos opinativos e matérias de interesse público.

A mais antiga publicação regular do mundo é a Acta Diurna, criada na Roma do século 59 a.C. A publicação era uma espécie de Diário Oficial que informava a população sobre os acontecimentos políticos, decisões jurídicas, campanhas militares, nascimentos, casamentos e obituários da época. Esculpidas em grandes placas de pedra ou madeira, as publicações eram expostas em lugares públicos de grande concentração de pessoas. Acta Diurna introduziu na sociedade a expressão “Publicare et propagare“, que significa “tornar público e se propagar”.

Foram os chineses que criaram os primeiros boletins impressos em papel. Escrita à mão, o Notícias Diversas circulou na cidade de Pequim a partir do ano de 713. Utilizando como base a xilografia, uma nova técnica de impressão através de tipos móveis foi pesquisada e, em 1041, surge a primeira prensa tipográfica criada pelo chinês Bi Sheng (990-1051). Mas a invenção de Sheng esbarrava no alto custo de construção e manutenção das máquinas tipográficas.

A popularização da prensa começa em 1439 através do alemão Johannes Gutenberg (1398-1468). Os caracteres móveis criados por Gutenberg foram utilizados primeiramente para a publicação de 180 exemplares da Bíblia. Sua invenção permitiu a produção em massa de livros e panfletos. Desta forma, a informação ganhou o espaço público e deu “voz” a população. Com a ascensão da burguesia e o aumento de pessoas alfabetizadas, logo surgiriam as publicações com notícias sobre o cotidiano das cidades contendo críticas e opiniões. Surgia assim um novo espaço de debate público, contendo o desejo da população em ser escutada nas decisões que afetavam a sua vida. A partir disso, o Estado se viu na obrigação de justificar suas ações perante a opinião pública.

Em seu artigo sobre Um passeio pela História da Imprensa, Patrícia Bandeira de Melo afirma que:

“O surgimento da esfera pública como espaço para a burguesia discutir, entre si, assuntos relacionados à sociedade civil e ao Estado abriu caminho para uma informação mais especializada, exigindo novas formas para a exposição de ideias.” (MELO, 2005, p.2).

Com o início da industrialização na Inglaterra, o mercado editorial ganha força. No século XIX a mecanização tornou o processo de edição e impressão mais rápido e barato. Em 1814, o jornal The Times implementa a prensa a vapor – patenteada pelo alemão Frederik Koening (1774-1833) – que permite a impressão de mil exemplares por hora. Outro fator que colaborou na expansão do setor foi a logística. A implantação das ferrovias, a criação dos navios a vapor, o surgimento dos serviços de correios e telégrafos fizeram com que as notícias fossem distribuídas de forma mais rápida e eficiente.

Descobrindo o grande potencial lucrativo e poder de influenciar a opinião pública e dos políticos, empresários americanos investiram em jornais populares, de preço baixo e altas tiragens. Contando com a tecnologia de máquinas rotativas surgiam nos Estados Unidos, entre 1890 e 1920, os chamados “barões da mídia”, com destaque para William Randolph Hearst (The New York Journal) e Joseph Pulitzer (New York Sun). Primeiramente, crianças eram contratadas para vender os exemplares nas ruas. Essas crianças eram chamadas de newsboys e ficavam nas esquinas gritando as manchetes principais para atrair os leitores. Desta época vem a famosa frase “Extra. Extra.” que tinha o objetivo de chamar atenção de quem transitava pelas ruas para as matérias de destaque do dia. O crescimento do setor – tanto em número de publicações, quanto em tiragem – fez com que as companhias criassem redes de distribuição para uma circulação e venda mais eficiente de seus exemplares.

Nesse cenário surgem as bancas. O empreendimento caracteriza-se pela exposição e comércio de jornais, revistas, histórias em quadrinhos, livros culturais, guias, mapas, álbuns e figurinhas, cartões postais, entre outros produtos. Estes pontos de venda passaram ser a ponta do processo de distribuição das editoras. Sem as bancas, o grande sucesso do mercado editorial não teria acontecido tão rapidamente. A sua implantação em pontos estratégicos em várias cidades, tanto nos centros urbanos quanto no interior, fez com que os produtos editoriais se popularizassem.

Por muito tempo as bancas eram a mais importante opção de venda. Porém, nos últimos anos, passaram a ter forte concorrência. Além do sistema de assinaturas das próprias editoras, competem diretamente estabelecimentos comerciais como os supermercados, as padarias, as farmácias, as lojas especializadas e a internet.

Este artigo tem como objetivo contar a trajetória das bancas no Brasil. A investigação passa por uma breve história do sistema de distribuição de jornais e revistas, o surgimento da banca no país, a evolução em seu formato e a atual situação do setor.

BRASIL

Nos 300 anos iniciais do período colonial brasileiro era proibida a impressão de textos, livros ou qualquer tipo de publicação no país. Segundo Carlos Roberto da Costa, “Obras escritas sobre o Brasil enfrentaram severo controle, fosse como forma de impedir qualquer movimento autonomista que ameaçasse a próspera colônia, fosse para evitar a cobiça de outras nações.” (COSTA, 2007, p. 41). Sob rigorosa fiscalização, em 1706 é instalada no Recife a primeira tipografia no Brasil onde só era permitido a impressão de papéis comerciais e orações religiosas.

Gazeta do Rio de Janeiro nº 1, primeiro impresso do Brasil de uso exclusivo do Governo

O panorama só muda com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, em 1808. Um jogo de prelo de uma tipografia encomendada na Inglaterra passa a ser usado na Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. A tipografia era de uso exclusivo do Governo. Nas gráficas da Secretaria seria impressa a Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro periódico impresso no Brasil, lançado em 10 de setembro de 1808. Antes já circulava o jornal o Correio Braziliense, lançado em 1º de junho de 1808, impresso em Londres e distribuído no país. Após 1812, surge a primeira revista intitulada As Variedades ou Ensaios de Literatura, na Bahia. Seguida, em 1813, da revista O Patriota, no Rio de Janeiro.

A ACTUALIDADE : jornal politico, litterario e noticioso, primeiro jornal a ser vendido no país.

Somente em 1821, com a Constituição imposta a Dom João VI, o monopólio estatal foi quebrado. Mesmo assim, não foi considerado um negócio lucrativo devido ao alto índice de analfabetismo dos brasileiros. Com um público leitor em formação, surge o jornal A Actualidade: Jornal Político, Litterário e Noticiosos, que circula no Rio de Janeiro entre 1859 a 1864. Publicado regularmente todos os sábados, foi o primeiro jornal a ser vendido no país. Para comprar a edição, os leitores poderiam ir à redação do jornal. Entretanto, a maioria das vendas eram feitas por escravos que saíam pelas ruas anunciando as manchetes do dia.

A Nação, de 4 de julho de 1872. Para dar credibilidade, optou por criar pontos comerciais ao invés de vendas nas mãos de ambulantes.

Em 1872, começa a circular o jornal A Nação, que anuncia em seu segundo número que “Esta folha não será vendida pelas ruas; estabeleceremos agencias em diversos pontos da cidade para as vendas avulsas, onde o público a encontrará, sendo esses pontos previamente annunciados”. A venda em pontos específicos era uma estratégia do proprietário, Bacharel João Juvencio Ferreira de Aguiar, para dar credibilidade ao jornal perante seus compradores, criando pontos comerciais ao invés de vendas nas mãos de ambulantes.

No século XIX, a imigração italiana trouxe ao Brasil a cultura dos gazeteiros. Gazetta era o nome da moeda da cidade de Veneza do século XVI. Um jornal, que circulou na cidade a partir de 1760, usou o título de Gazetta Veneta e tinha como slogan “Ao custo de uma gazetta”. Logo gazetta se tornou sinônimo de notícia, de quem publica ou redige jornais. Também eram considerados gazeteiros aqueles que circulavam pela cidade anunciando as manchetes.

Um desses imigrantes italianos recém-chegado ao país chamava-se Carmine Labanca. Carmine iniciou seu trabalho de gazeteiro vendendo jornais no Largo do Machado, na cidade do Rio de Janeiro. Cansado de ter que ficar circulando pela região carregando um grande volume de papel, Labanca teve a ideia de montar uma bancada – feita com uma tábua sobre caixotes de frutas de madeira – onde expunha os jornais. O ponto de venda tinha a vantagem de acomodar um número maior e variado de exemplares, aumentado o seu faturamento. Surgia assim o primeiro ponto fixo de venda de jornais do Brasil, localizado em espaço público (calçada). Segundo o site Cartografia de Bancas do Rio de Janeiro, a banca de Carmine estabeleceu-se entre 1880 a 1890. Criou-se na época o hábito dos moradores do Rio de Janeiro irem “no Labanca” comprar jornal. Logo o nome banca se tornou sinônimo de estabelecimento de venda de jornais e revistas.

O empreendimento deu certo. Outros gazeteiros abriram pontos de vendas em locais de grande fluxo de pessoas nos grandes centros comerciais do país. A partir de 1910, com a necessidade de minimizar a ação do tempo, já que os gazeteiros e seus produtos ficavam expostos ao sol, vento, chuva e frio, as bancas evoluíram suas estruturas e passaram a ser construídas com madeira. Considerados como ambulantes, a primeira regulamentação do setor aconteceu através do decreto nº 1.356, de novembro de 1911, da Prefeitura do Distrito Federal. A preocupação do Estado era manter controle sobre a atividade, evitando um crescimento desordenado de pessoas estabelecendo seus pontos comerciais nas calçadas. A partir do decreto apenas quem tivesse a licença poderia vender os produtos. A intenção tinha um segundo objetivo que era estipular uma regulamentação fiscal e arrecadar impostos desses novos profissionais que usavam o espaço público para ganhar dinheiro.

Banca de revista, Praça da Sé, São Paulo, SP – 1940 – Créditos: Hildegard Rosenthal, Acervo Instituto Moreira Salles

Entre os anos 30 e 50, a maior fonte de informação, cultura e entretenimento do país era O Cruzeiro, uma publicação criada em 1928 por Assis Chateaubriand através dos Diários Associados. A revista vendia “mais de 700 mil exemplares num Brasil de 50 milhões de habitantes (Secretaria Especial de Comunicação Social, 2002, p.7). Em sua edição histórica sobre o suicídio de Getúlio Vargas alcançou sua maior tiragem, vendendo mais de 720 mil exemplares. Possuía sucursais em Paris, Nova York, Roma e Tóquio. Para conseguir esse feito “Chatô operou verdadeiro milagre para a época: usando caminhões, barcos, trens e até um avião bimotor, para conseguir fazer chegar às bancas ‘de Belém à Porto Alegre, simultaneamente’ os exemplares de sua revista.” (MIRA, 1997. p.28). Percebe-se no depoimento de Maria Celeste Mira a importância das bancas no esquema de distribuição da época.

Como afirmou Victor Chagas,

“(…) as bancas representam ainda a ponta final da etapa que envolve ações de circulação e distribuição das publicações impressas, constituindo-se especialmente como gargalo para o escoamento das notícias no modelo produtivo dominante no país.” (CHAGAS, 2011, p.44)

Em 1935, é fundada a Associação dos Vendedores e Distribuidores de Jornais e Revistas de São Paulo. A entidade, pioneira no país, passou a defender o interesse do setor, reivindicando melhorias. Na década de 50, iniciou-se o processo de reconhecimento das bancas como um estabelecimento comercial e não mais como vendedores ambulantes, através de decreto do prefeito Jânio Quadros de 1954. As bancas de madeira foram gradativamente sendo substituídas por bancas de metal para melhor durabilidade das estruturas.

O ex-jogador Zizinho lendo uma revista na banca de jornal durante entrevista para o jornal A Gazeta Esportiva, fazendo um comentário sobre a participação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950, do Brasil. Crédito: Gazeta Press

O início da segmentação de conteúdo das revistas, na década de 60, criou-se a necessidade de ampliar o espaço das bancas para comportar todas as edições lançadas pelas editoras. Em 1963, é aprovada a Lei 6.229/63 que padronizou os tamanhos das bancas em São Paulo. A Associação dos Jornaleiros entra em embate com a Prefeitura por achar insuficiente o tamanho estipulado para a exposição de seus produtos.

Banca de Jornal da Av. Copacabana com Bolivar – Rio de Janeiro – Anos 60. Crédito: Site Rio que Passou

A segmentação de mercado acelera na década de 80. Com o fenômeno, as bancas se vêem na complicada situação de organizar uma quantidade maior de produtos em um mesmo espaço físico. O jornaleiro passa a ser, além de vendedor, um orientador dos leitores diante da imensidão de edições disponíveis.

Em 1985, existiam na capital de São Paulo cerca de 400 bancas licitadas e 3.000 regularizadas. No ano seguinte, uma nova lei de nº 10.072/86 autorizou as bancas a terem até 30 metros quadrados para melhor acomodar o crescimento do mercado editorial. Em 13 de abril de 1987, os jornaleiros conseguiram negociar com as editoras a venda total por consignação. A consignação significava prazo de entrega de encalhe e pagamento do reparte vendido, vencidos a periodicidade de cada título. Duas outras conquistas dessa negocioação foram o fim da venda direta das editoras de seus jornais, através de marreteiros (vendedores de jornais em semáforos); e a paridade de preços de assinaturas com os preços praticados nas bancas.

Em 1996, havia no Brasil 17.100 bancas. “O número de títulos em circulação era de 1.130, num total de 371 milhões de exemplares, ou seja, 2,28 por habitante ao ano.” (MIRA, 1997, p.2).

Banca de metal, estrutura antiga mas ainda bastante presente em várias cidades do país.

SÉCULO XXI – ATENDIMENTO x PRATICIDADE

O setor de produtos editorias se expandiu no século XXI. A partir de dados divulgados pela Associação Nacional de Editoras de Revistas (ANER), “somente o número de títulos registrados na ANER subiu de 2.034 no ano 2000, para 3.651 em 2005” (SANTOS e CAPRINO, 2007, p3). Para atingir um mercado maior, as editoras passaram a apostar em outros estabelecimentos e seus produtos começaram a ser vendidos em locais alternativos, como supermercados, farmácias e padarias. Nos shoppings foram criados quiosques de vendas e lojas especializadas. As livrarias reservaram um espaço específico para jornais e revistas em suas prateleiras. E se investiu na comodidade das vendas via internet de assinaturas e leitura digital.

Em depoimento ao artigo “Banca de jornal tenta aumentar o portfólio”, o presidente do Sindicato dos Jornaleiros de São Paulo (Sindjorsp), José Antônio Mantovani, afirma que ” por volta de 2003, havia 20 mil bancas no país e o faturamento do setor era de R$ 140 milhões. Hoje são 15 mil pontos de venda que faturam R$ 80 milhões.” (CASADO, 2013).

O site da Associação Nacional de Jornais possui tabela de circulação média diária dos jornais pagos.  O relatório mais recente, de 2014, indica uma variação negativa de -8,9%, com 7,579 milhões de exemplares vendidos por dia. Os números de afiliados também diminuiu, em 2013 eram 4.353 e em 2014, 3.892.

ANO CIRCULAÇÃO NACIONAL* VARIAÇÃO % AFILIADOS AO IVC *
2015
2014 7,579 -8,9 3,892
2013 8,477 -3,7 4,353
2012 8,802 1,8 4,52
2011 8,651 3,5 4,443
2010 8,358 1,9 4,291

* Milhões de exemplares/dia

Tabela completa em www.anj.org.br

Neste mesmo período, os números de leituras dos jornais online não param de crescer.

Visitas únicas
Janeiro/2005 4.238
Janeiro/2006 5.274
Janeiro/2007 6.941
Janeiro/2008 10.343
Janeiro/2009 12.782
Janeiro/2010 15.633
Janeiro/2011 18.421
Janeiro/2012 21.968
Janeiro/2013 23.771
Janeiro/2014
Janeiro/2015

* Os números correspondem à visitas únicas por mês em milhares (000)

Fonte: www.anj.org.br

A expansão do mercado digital têm preocupado os jornaleiros. Em março de 2012 a editora Abril criou o IBA, uma banca digital que contém revistas, e-books e jornais. Já em dezembro do mesmo ano, a IBA contabilizou em seu acervo as publicações periódicas de 30 revistas e 32 jornais, além de 11.516 e-books. O preço das edições é menor do que sua versão impressa porque dispensa vários custos como impressão, distribuição e estoque. As empresas de distribuição de conteúdo digital têm crescido com o avanço do acesso a internet e venda de tablets. Segundo o IBOPE Media, no terceiro trimestre de 2012, o Brasil atingiu 94,2 milhões de pessoas com acesso à internet. Pesquisa do IBGE divulgada em 2016 afirma que pela primeira vez a internet chegou a 50% das casas no Brasil. Mostra, pesquisada em 2014, indica que 36,8 milhões de lares já tinha algum tipo de conexão. O smartphone se tornou o aparelho que permitiu esse salto. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo afirma que 168 milhões de aparelhos em usos em 2016.

Em entrevista dada ao jornal O Jornaleiro, Edição 50, do Sindicato dos Jornaleiros de São Paulo, o proprietário da Banca Martinelli afirma que entre os desafios a serem enfrentados pela categoria é “Primeiro, o atual poder público que se opõe claramente às bancas. Depois precisamos observar que essa garotada que utiliza cada vez mais a internet poderá reduzir em muito o público que gosta de leitura. Não sei se teremos renovação de público.” Fica apenas a minha observação que as novas tecnologias não tiram o gosto da leitura, apenas provocam uma mudança de hábito e de plataforma. Ao invés da leitura em papel, há toda uma nova geração que lê em aparelhos eletrônicos.

Banca Anfitriã, de São Luís, banca como ponto de informação ao turista.

Uma solução para recuperação financeira das bancas foi a venda de produtos de conveniências como balas, picolés, cigarros, canetas, chaveiros, vendas de chips de celulares, entre outros. Alguns pontos de vendas de jornais e revistas passaram a prestar serviços. É o caso do projeto Banca Anfitriã da Prefeitura de São Luís. Iniciado em 2012, o projeto transforma a banca em um ponto de informação turística. O projeto treina os jornaleiros para orientar turistas e aproveitar para vender produtos relacionados a cidade histórica, como mapas, roteiros culturais e gastronômicos, além de fornecer curso de idioma. A estrutura continua a mesma, entretanto são divididos os gastos entre empreendedores e a prefeitura para recuperação de lataria, implantação de sinalização.

A legislação rígida dos munícípios dificultam a produção de estruturas diferenciadas. Por esse motivos algumas bancas usam o recurso da segmentação de mercado ou da personalização para tornar seu ponto em diferencial de mercado. Como as revistas e jornais possuem preço tabelado esses atrativos podem influenciar na decisão de compra de seus clientes. Um exemplo de segmentação de mercado é a Banca dos Concursos, localizada na Avenida Afonso Pena, nº 1.132, no Centro de Belo Horizonte. A banca se especializou em editais de concursos púbicos e vestibulares, possuindo em seu estoque apostilas e material de apoio ao estudante. São encontrados ainda jornais especializados com notícias sobre os editais de todo o país, revistas que dão dicas de estudos e livros indicados para a leitura das provas.

Banca Sol em Osasco, SP

Outro exemplo é a Banca Sol, da cidade de Osasco, São Paulo. Temas como fadas, super-heróis e datas comemorativas transformam a banca em uma atração na cidade. A interação se expandia para a internet através de uma comunidade criada no Facebook contendo a postagem de fotos dos clientes e lançamentos. Em uma ação no mês de junho de 2013, por exemplo, foi usado o tema de Festa Junina. Além da banca decorada, as proprietárias vestiram roupas típicas e foi contratado um pipoqueiro que distribuiu pipoca grátis. Neste tipo de ação, a banca deixa de ser um mero estabelecimento comercial e se torna um espaço de convivência. Em 2017, quando fui atualizar os links para este artigo, a comunidade do facebook está fora do ar. Depois tenho que pesquisar o que aconteceu com essa iniciativa.

REGULAMENTAÇÃO DAS BANCAS DE REVISTAS

(Obs.: pesquisa realizada em 2013 – necessário fazer revisão se não houve mudanças nas leis e números.)

Cada município tem uma regulação própria para a instalação das bancas. Na cidade de Belo Horizonte, as bancas de revistas são regulamentadas de acordo com o Código de Posturas, Lei 8.616/2003. A Lei estabelece que o serviço de bancas de jornal e revistas localizadas em logradouros públicos só pode funcionar mediante licença prévia concedida a título precário. Não é permitida às empresas de distribuição de jornais e revistas a licença. A seleção de empreendedores é feita através de licitação previsto no Artigo 121 e o interessado tem que obter licença prévia, Artigo 116. O permissionário precisa renovar a licença anualmente e respeitar os termos previstos no Código de Posturas e na Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo (Lei 7.166/96).

As regras estabelecem que o modelo de banca deva ter até 18 m2 de largura e até 3,50 m de altura. Os estabelecimentos devem ser instalados no passeio público e não devem ultrapassar a largura de 50% da extensão transversal do passeio para garantir o trânsito do pedestre. Os locais de instalação são indicados pelo Executivo.

Em 27 de março de 2009, a Comissão de Mobiliário Urbano, aprovou os modelos padronizados de bancas de jornais e revistas a serem adotados no Município de Belo Horizonte. Nas especificações técnicas o piso e o teto têm que ser feitos de barras e chapas de aço carbono zincado soldadas. As paredes são de aço galvanizado com pintura eletrostática ou aço escovado. A cobertura é de aço inox ou aço com pintura eletrostática. A cor padrão é verde 6005 e alumínio 9006 ou cinza 7001. No painel fixo de publicidade é permitida somente a iluminação interna e pode ter no máximo 6 cm de espessura externa à parede da banca. O nivelamento do piso é feito através de concreto aparente ou alvenaria rebocada e pintada na cor de concreto. E as instalações, com visores para medição embutidos na parede. As dimensões das bancas são de acordo com a largura do passeio.

Projeto padrão de banca do município de Belo Horizonte

Os modelos básicos de bancas são confeccionados com 2,90 metros de altura. O forro de teto é feito em chapa de segurança, com reforço estrutural e com isolamento térmico. As portas de enrolar frontal e lateral são de chapas raiadas de aço galvanizadas. Fechaduras tetra-chave tipo poli forte, em uma das portas frontal. Os vidros deslizantes nas vitrines laterais tem 5 mm de espessura. O balcão expositor central é em formato de ilha ou tipo cascata. O piso é revestido em borracha antiderrapante. Possui calha coletora de águas pluvial frontal e traseira.

Modelo padrão básico. Crédito: Site Banca MG

Umas das características atuais das bancas é a rede elétrica completa com pontos internos e externos de luz. A rede de energia serve de alimentação para computadores, máquinas de cartão de crédito e débito, refrigeradores e máquinas de fotocópias.

Em consulta feita à Assessoria de Comunicação da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos de Belo Horizonte, em julho de 2013, fui informado que atualmente há 650 bancas na cidade, com maior concentração na Regional Centro-Sul. Esse número de empreendimentos não sofreu variações significativas nos últimos anos e não há previsão de licitação para instalação de novos empreendimentos.

Por serem concessões públicas, as bancas sofrem com a rígida padronização em todo o país. Para se investir em design, é necessário aprovação prévia para conseguir uma autorização especial da Prefeitura para sua implantação.

Em Florianópolis, Santa Catarina, depois de 20 anos mantendo o mesmo padrão – e após um longo diálogo entre jornaleiros e a Prefeitura – foi feito um acordo para revitalização que começou a ser implantado em 2009. A Revista do Jornaleiro nº 109 traz uma reportagem de 2011 em que mostra que as bancas, antes apertadas e desconfortáveis, deram lugar a estruturas mais espaçosas, garantindo uma melhor condição de trabalho para os proprietários.

Algumas poucas bancas conseguem fugir a regra. É o caso da Banca Martinelli, localizada na Praça Antônio Prado, no centro velho da cidade de São Paulo, que foi instalada na década de 80. Seu projeto fez com que ela fosse construída de forma que seu modelo integrasse de maneira harmoniosa à paisagem do local. A iniciativa a transformou em um cartão postal da cidade. O material usado na construção da sua estrutura foi uma madeira especial empregada na indústria naval. Usou-se o estilo colonial em seus detalhes, como piso de assoalho, cobertura e luminárias.

A Banca Martinelli é um dos poucos exemplos de banca que conseguiu inovar em seu design. Crédito: Revista O Jornaleiro

MODERNIZAÇÃO E CONFORTO

O investimento em modernização influi diretamente no faturamento. A Banca Novo Rio Recreio, do bairro Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro é um exemplo bem sucedido. Em 2012 investiu na ampliação do negócio. Antes a banca tinha apenas 8m². Após uma reforma, o empreendimento aumentou seu espaço para 18m². A expansão garantiu melhor distribuição dos produtos, conforto aos compradores e aumento de 40% no faturamento de vendas.

A Banca da Rodoviária, da cidade de Barretos, São Paulo, investiu cerca de R$ 23 mil na reforma de sua banca. A nova infra-estrutura fez com que o seu faturamento aumentasse em 300%. Na reforma foram dados destaque à exposição dos jornais e revistas e melhor acesso do cliente aos produtos. Segundo o proprietário André Luiz Ribeiro, o novo visual da banca fez com que seu faturamento subisse de R$ 1.500,00 para R$ 12.000,00 mensais.

Os designers dos fabricantes de bancas têm trabalhado em novos projetos também pensando nesse conforto dos jornaleiros. As estruturas de luxo possuem em seu projeto banheiros instalados, ventilador no teto ou ar-condicionado e cadeiras mais confortáveis para as longas jornadas de trabalho. O balcão já é adaptado com espaço para instalação de computador e máquinas de cartão de crédito e débito.

O piso das novas bancas de luxo possuem acabamento em granito, as soleiras são de aço inox, as prateleiras de vidros reguláveis e vitrine externa para exposição de produtos. A praticidade do cliente estão presentes no espaço de circulação dentro da banca, na instalação de TV com DVD player passando os lançamentos disponíveis no mês, música ambiente, aromatizador ambiente e na agilidade do atendimento e consulta de estoque disponível através software de fluxo de caixa, cadastro de clientes, reserva de produtos, posição do estoque.

Outro ponto importante é a vitrine. Segundo o consultor de marketing do Sebrae/SP, Wlamir Bello, em entrevista para a Revista do Jornaleiro, edição 110, afirma que “pesquisas indicam que 83% da percepção do cliente são originados pela visão e que 80% das decisões de compra são feitos no PDV (ponto de venda)”. O propósito da vitrine é informar e motivar o comprador, influenciando sua decisões de compra através de uma vitrine bem iluminada, limpa, trazendo sempre uma novidade, lançamentos e assuntos do momento. A poluição visual, com vários títulos na frente da banca e muitos objetos pendurados atrapalham a visão dos títulos e confundem o comprador. As revistas devem ser organizadas por segmento, com os títulos mais vendidos ficando no balcão central. No balcão do caixa ficam os produtos de conveniências para provocar a venda por impulso.

Banca de luxo de estrutura em aço inox. Crédito: Banca Forte

CONCURSO BANCA NOVA DO LARGO DA BATATA

Em 2012, a Editora Abril S.A., em parceria com a Prefeitura de São Paulo, realizou o Concurso Banca Nova, que teve como objetivo criar a concepção de projetos de novos layouts para as Bancas do Largo da Batata. A proposta do concurso era promover o desenvolvimento socioeconômico das bancas da região. Para concorrer, era necessário que o profissional tivesse registro no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA). Teve como critério principal a criação de um espaço diferenciado para a divulgação de produtos editoriais. O projetista deveria elaborar um empreendimento que causasse um menor impacto à paisagem urbana. Outras preocupações eram com a durabilidade da banca; um melhor desempenho térmico, acústico e de segurança para o jornaleiro; inovação tecnológica; praticidade de manuseio e operação; e utilização de materiais e processos de fabricação e instalação que minimizem a agressão ao meio ambiente. O custo para produção e implantação tinha como valor máximo estipulado de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) a unidade.

Inscreveram-se para o concurso 608 projetos, dos quais 15 projetos foram selecionados pela redação da revista Arquitetura & Construção da Editora Abril para a votação final. No dia 9 de novembro de 2012 foi escolhido projeto do arquiteto João Paulo Guedes:

“O arquiteto João Paulo Guedes optou por um desenho limpo, de superfície contínua e com material de aparência natural (aço corten). A configuração remete a tipologia dos pórticos encontrados em centros urbanos que representam marcos visuais de referência na paisagem.” Editorial do site www.abr-casa.com.br

O aço foi escolhido por João Paulo para o projeto por ser um material reciclável. O aço também permite a criação de um sistema de estrutura pré-fabricado, possibilitando rapidez e economia na implantação das bancas. Outra característica de destaque é a importância dada à acessibilidade, permitindo fácil acesso de cadeirantes e pessoas com mobilidade limitada aos produtos da banca.

Simulação. Projeto ganhador do Concurso Banca Nova do Largo da Batata. Crédito: João Paulo Guedes

CONCLUSÃO

A banca foi importante empreendimento na consolidação do mercado editorial do país. Ela representa a ponta da cadeia produtiva, interagindo diretamente com o público leitor. Muitos dos leitores adquiriram uma relação de confiança e amizade com os jornaleiros.

Na última década, apesar do crescimento das cidades, o número de bancas tem diminuído. Cito três motivos:

  • Mudança de hábito de leitura, principalmente das novas gerações, que se informam através de computadores, tablets e, principalmente, smartphones.
  • Outro motivo é a concorrência de outros estabelecimentos comerciais que fez com que as bancas perdessem a exclusividade da venda de produtos editoriais.
  • Por estarem instaladas em locais públicos, os empreendimentos sofrem com rígida legislação de padronização para que elas não interfiram na paisagem e circulação da população. Este motivo dificulta a inovação para atrair o consumidor.

A diminuição do volume de vendas de periódicos obrigou as bancas a diversificarem seus produtos, se transformando em pequenas lojas de conveniências. Outra solução tem sido transformar as bancas em pontos de informação turística.

Entretanto, são poucos os exemplos de bancas que têm investido em design. Alguns jornaleiros modernizaram suas bancas. A modernização aponta para um crescimento de vendas e um retorno rápido do dinheiro aplicado. Porém, nem todos possuem um fluxo de caixa suficiente para arcar com esse altos custos de implantação. Nesses casos, cabe ao profissional pensar em diferentes estratégias, onde se agrega ao produto não só o valor de capa mas um valor simbólico. Onde antes era apenas um local de compra, passa a ser um local de leitura e convivência.

“O perigo reside na tendência moderna que leva as pessoas a se relacionarem obsessivamente com os bens materiais em vez de participarem de interações sociais, passando a usar o consumo como um substituto para outros aspectos de intercâmbio humano.” (DENIS, 1998, p.23)

REFERÊNCIAS

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CHAGAS, Viktor. O Jornaleiro como objeto: institucionalização histórica, economia e política das bancas de jornais. Revista Científica A Barrigada – VI, n.3. Paraíba: Campinas Grande, 2011.

COSTA, Carlos Roberto da. A Revista no Brasil, O Século XIX. Tese de doutorado. Escola de Comunicação e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007.

DENIS, Rafael Cardoso. Design, cultura material e o fetichismo dos objetos. Arcos Design – Vol. 1 – Número Único. Rio de Janeiro:UERJ, 1998. p.23

MELO, Patrícia Bandeira de. Um passeio pela História da Imprensa: O espaço público dos grunhidos ao ciberespaço. Pernambuco: Universidade Federal de Goiás, 2005.

MIRA, Maria Celeste. O Leitor e a Banca de Revista. O caso da Editora Abril. Tese de Doutorado em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Estadual de Campinas. 1997

REIS, Alexandre Amorim dos Reis. Materialidade do design e cultura material. T&C Design. dentro de Estudos. Teoria, Cultura e Pesquisa em Design. Escola de Design: UEMG, 2005.

Revista do Jornaleiro. Ano XIII – Edição 109 – março/abril de 2011. Dinap: São Paulo, 2011.

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SANTOS, Marli dos; CAPRINO, Mônica Pegurer. Revistas: desafio pedagógico no ensino de Jornalismo. Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo, Brasília, v.1, n.1, p.87-105, abr./jul. 2007.

Secretaria Especial de Comunicação Social. O Cruzeiro – A maior e melhor revista da América Latina. Prefeitura do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2002.

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